27 de out. de 2009

O bêbado e a senhora

Pelo seu querido binóculo, Ezequiel observava a vida dos outros passando. A dele já havia passado. Observar a rotina das pessoas fazia dele mais humano e menos besta. Aquele hábito mantinha-o sóbrio, quase no limite de atravessar a linha da loucura, mas ainda sóbrio. Vez ou outra, desejava enlouquecer e viver no mundo que ele havia criado. Vez ou outra, ele sentia vergonha, angústia, desespero, medo, frio, fome, repulsa e sono. Na maioria das vezes, ele só observava a vergonha, angústia, desespero, medo, frio, fome, repulsa e sono das pessoas.

Nesses sabe-se-lá-quantos-anos de rua, notou que o paulistano é paciente e solitário. Paulistano espera o semáforo abrir, espera o trânsito andar, espera um lugar no restaurante, uma vaga no estacionamento, a fila no banco, a fila na loja, outra fila pra comprar o ingresso do cinema ou do jogo do seu time, espera pra ter alguns centímetros quadrados no ónibus e no metrô, espera seu lugar ao sol, espera a garoa das 6 da tarde, o fim-de-semana chegar pra poder trabalhar mais em casa, as férias pra fazer entrevistas e mudar de emprego, espera dar o horário do rodízio pra ir trabalhar, espera o chefe ir embora pra poder ir pra casa, o aumento pra poder comemorar, espera o sol pra descer a serra, a madrugada pra poder dormir, a doença pra ir ao médico, a morte pra viver a vida... Paulistano é rodeado por milhões de pessoas, mas é tão sozinho que Ezequiel não conseguiu achar um exemplo comparável. Todo mundo se olha. Ninguém se enxerga.

Ezequiel enxergava.

Dali de seu canto, na calçada de uma loja de pneus, a um quarteirão do Elevado Presidente Costa e Silva - o Minhocão - presenciou um beberrão falando de Deus, pregando a bíblia, falando de salvação, de pecado, de paz, amor e a graça de viver. Discursou alto por vários minutos, repetindo várias vezes determinados salmos e se embaralhando em algumas frase. "Deus é pai. Deus é a salvação de todas as almas e de todos os corações. Confia em Deus. Confia. Deus salva!" - dizia ele. Os passantes e moradores olhavam com ar de curiosidade e vergonha alheia, mas a pressa não permitia que eles fizessem mais do que isso. De repente, uma senhora gorducha sai da portaria do prédio e começa a reclamar com o tal "pastor andante". A reação dele, diante da situação, foi nada diferente do esperado: violenta. Com dois pontapés e a socos derrubou na calçada a pobre senhora. Ela bateu com força a cabeça no chão e ficou lá se debatendo. O pregador da paz terminou por causar o caos. Enquanto a senhora ficava a gritar de raiva e dor, o bêbado saiu dali. Nem sequer foi correndo. Ninguém foi ajudar a senhora. Ninguém foi atrás do cara. Simples assim.


Depois de alguns minutos, Ezequiel foi até lá ver como a senhora estava.

21 de out. de 2009

católico

c a s a m e n t o

casei de véu e grinalda
eu de branco, ele também
em suas mãos, o par de alianças douradas
nas minhas, um buquê de lírios, delírios
na minha cabeça, um pescoço leve
na dele, anseios pela noite de núpcias


e que venha a lua de mel

6 de out. de 2009

Transeunte

Jogou aquela tralha toda na calçada e decidiu que chamaria aquele canto de lar. Um colchão velho, um cobertor mais velho ainda, um par de chinelos sujos e maltratados, botas gastas, meia dúzia de roupas, dois bonés e um binóculo. Este último, por sua vez, ele havia encontrado no lixo em bom estado e carregava sempre consigo. A dignidade ele havia deixado para trás, há vários quarteirões dali.

Com o dinheiro que arrecadou com a esmola do dia, foi até a lanchonete da esquina, comprou um pão com presunto e o resto de cachaça. Saiu de lá se apoiando no ócio e quase tropeçou quatro vezes, mexeu com duas moças que passavam, clamou pelas putas do puteiro ali ao lado, ensaiou uma dança sem música, um discurso sem platéia, sentou em seu canto e se pôs a bater uma punheta ali mesmo. Era ele e seu momento egoísta de prazer. Pronto. Estava realizado por hoje. Podia dormir em paz.

Acordou no susto e viu carros. Muitos carros. Quase mais carros do que pessoas. Buzinasgritospassosmotoresfreiadastropeçosconversascelularestocandobuzinasemaisbuzinascaos. Estava tudo ali ao mesmo tempo. Três crianças fumavam crack logo ali, enquanto outras duas pediam esmola no semáforo.
Ezequiel nem chamava mais tanta atenção. Vários outros como ele transitavam naquela rua. Subitamente, ele havia até recuperado seu nome. Pegou o binóculo e começou a observar os detalhes. Naquele momento, ele era o único que enxergava.

11 de set. de 2009

Ausência

Acordei às 3 e 47 com uma ligação no celular. Era meu anjo da guarda se queixando sobre minha inquestionável desatenção. Parecia tão perplexo, tão perdido que as palavras vinham soltas, ficavam no ar. Depois dessa ligação, eu senti um breve mal-estar. Senti a janela do quarto tremer e, depois, parecia que alguém estava batendo. Ensaiei por alguns segundos mantendo meu rosto no travesseiro até que tomei coragem e olhei através das cortinas. Aparentemente, ninguém. Naquele instante, me veio um calafrio de cima a baixo. Levantei e fui beber água. Dei uma rápida volta no apartamento pra ver se encontrava algo atípico. Nada. Todos dormiam em paz. Deitei novamente e a sensação continuava. Cheguei a sentir algo gélido tocar rapidamente meu dorso. Passou logo em seguida. Comecei a prestar atenção nos ruídos na janela. Calculava se as batidas aconteciam no momento seguinte em que os carros passavam lá em baixo. Não aconteciam. Me preocupei em calcular a velocidade do vento lá fora. Mal tinha vento lá fora. Entendi que aquele incômodo deveria ser psicológico. Não havia nada de assombrado ali. Eram só paredes, janelas, alguns poucos móveis e muita angústia. Muita desatenção. Liguei pro meu anjo da guarda. Ele ainda estava perturbado. Tentei falar algumas breves palavras na tentativa de expressar um pouco o que estava sentindo. Não acho que tenha conseguido cumprir a missão, mas falar com ele me trouxe uma leve sensação de conforto e dever cumprido, mesmo que a conversa tenha dado a entender que ele queira ficar um tempo longe, descansando em sua nuvem, recuperando suas asas, de repente, até guardando outra pessoa. Desatenção deve dar muito trabalho pra anjo da guarda. Eu não o culpo por isso.

Eis que hoje eu acordei pela metade. Acordei meio sem vontade. Eis que hoje o dia não nasceu. Eu que achei que não precisava de anjo da guarda, lamentei a ausência do meu.

21 de ago. de 2009

Gerundismo

Hoje acordei cheio de gerundismo. Vou estar dormindo mais 5 minutos depois de acordar pela terceira vez. Vou estar tomando um banho quente e demorado pra aquecer esse frio que até parece inverno. Vou estar assassinando o motoqueiro filhodaputa que tentou passar onde não cabia e arranhou meu carro. Vou estar ficando stressado com o trânsito louco dessa cidade maluca. Vou estar sentindo falta do sorriso da menina, das brincadeiras bobas de touro mecânico e de cheirar o feromônio por baixo dos braços nus. Vou estar ficando aliviado com o fim do job atrasado. Vou estar ficando feliz com o amigo ganhando aumento, o outro sendo contratado, o outro pegando trabalho extra e eu descansando. Vou estar ficando feliz com a ligação do pai. Vou estar comemorando o show de uma banda que queria tanto ver. Vou estar empolgando com a decoração do quarto, com a chegada do fim-de-semana, com a proximidade da estação. Vou estar ficando cansado de tanto gerundismo, de tanta repetição. Vou estar confessando que tudo isso foi só uma intenção de romper com meu hiato literário-criativo e jogar um pouco de palavras ao vento. Vou estar confessando que vomitar palavras me faz bem.

22 de jul. de 2009

Corro

Corro pra encontrar a sorte Corro da sombra Corro da luz Corro de quem me persegue Quando canso caminho Nunca paro Nunca paro Corri de chuva Corri de sol Corri de calor Corri de frio Corri da mãe professora primo tia vó Corri de bandido De amigo brincando de pega pega Corri de física química biologia Corri pra pegar pipa Corri jogando bola Corri atrás de estrela de disco voador de galinha d' angola Corri pra pegar ônibus Corri pra chegar cedo Corri pra perder peso Corri do que desconhecia Corri de quem nem me via Corri por correr Tropecei caí levantei Corri tropecei caí feio machuquei mais feio ainda levantei Corri por medo por raiva por pressa por vergonha Corri da morte Corri da afronta Corri da falta de perspectiva Corri da incerteza Corri da certeza de não ter certeza Corri da mediocridade Corri pra ver o mar Corri sozinho Corri de quem correu sozinho a vida inteira Corri de sei lá o que de sei lá onde Sei lá Cansei Caminhei pensando em voltar a correr Corri do ódio Corri do amor Tropecei não caí continuei correndo Corri pra te encontrar Encontrei É minha última chance Corro Nunca paro Nunca paro

23 de jun. de 2009

Assédio e egoísmo

Talvez

Talvez você nem saiba
Que quando você passa
A rua inteirinha se faz acordar
A rua inteirinha te anuncia

Talvez você se esqueça
Que caso eu mereça
A vila inteirinha vai conspirar
A vila inteirinha te assedia

Talvez você me entenda
Quando eu criar a cena
Que a cidade inteirinha vai elogiar
Que a cidade inteirinha me veja

Construí uma avenida
Com palavras e aquarela
Coloquei seu nome nela
E fechei com fino estar

Usei cubismo em duotone
Com paletas de egoísmo
Foi aquém do que eu preciso
Pra só eu te ver passar.

17 de jun. de 2009

Mais uma comemoração


Até

O mar
Ah, mar...
Amar
Martírio
Mar lírio
Amortecer
Amor tecer
Amortizar
A morte usar
Amor te dar
Até a morte

27 de mai. de 2009

A comemoração de 1 ano e 9 meses de blog

E desde quando isso é razão pra comemorar?

Acordei com vontade de escrever um pouco mais sobre mim do que quase todo mundo sabe. Acho que não me lembro de ter tido essa vontade de escancarar a porta. Nas vezes que escrevi de mim, escrevi disfarçado de narrador ou me escondi através de um eu-lírico letárgico.

Filho de Leonardo e Cleonice, irmão mais velho de Diêgo, pisciano, nasci em 25 de fevereiro como Leonardo Curcino Alves de Sousa Junior e acabei virando só Leonardo Curcino ou Leo Curcino mesmo (como instituiu o Victão no coletivo manazinabre.blogspot.com, na qual participo todos os terceiros dias do mês, fora algum displicente atraso). Nasci mineiro, virei goiano e agora estou paulistando. Na terra das oportunidades e do caos, formado publicitário, vim buscar meu brio. Os holofotes que sonhava na infância ainda não vieram, nem mesmo o sucesso e a estabilidade, mas veio a independência.

Provavelmente, a publicidade tenha sido mera consequência. A paixão pela arte veio logo cedo. Aos 6 ou 7 anos, dava meus primeiros rabiscos. Aos 10, comecei a pincelar. Depois, vieram o interesse por quadrinhos, literatura, poesia, música e cinema. Acabei me envolvendo um pouco com tudo isso e não me dedicando exclusivamente a nenhum. No fim das contas, artista frustrado, virei Diretor de Arte. A tablet substituiu o lápis e o papel, apesar de minha prática com ilustração ter se tornado quase nula. Meu violão, eu encostei em um canto qualquer. Os quadros que pintei se perderam em uma das mudanças de residência e as tintas guache, nanquim e óleo deram lugar ao Photoshop. Continuo escrevendo com ar de quem não sabe muito onde quer chegar. Geralmente, gosto de me expressar através de poemas, mas me arrisquei a escrever em prosa umas 5 ou 6 vezes. Não gosto de escrever coisas longas. Fico com medo de me perder e a história perder o ritmo, a graça e o rebolado.

Costumo falar que meus poemas são semi-poemas ou irregulares e, consequentemente, eu sou um semi-poeta. Não tenho a disciplina dos gregos em escrever seguindo as normas. Não ligo pra métrica, pra rima e pro ritmo. Não me preocupo se minhas estrofes são monostícas, dísticas, ..., quintilhas e assim por diante. Não me preocupo com os antecantos e bordões. Não tenho a menor paciência pra escansão. Prefiro usar e abusar das licenças poéticas e alegorias. Até entendo os conservadores que consideram tal prática irresponsável, mas não me importo, sinceramente.

Nesse 1 ano e 9 meses de blog, escrevi sobre vários assuntos, mas devo concordar que a principal temática foi o amor. O mais curioso de tudo isso é que eu nunca tinha amado, até então. Talvez, tenha gostado de uma ou outra pessoa, o que é normal, mas sempre me inspirei nos romances de filme, casais de amigos, em pontos de ônibus, restaurantes, cinema ou, talvez, no romance que gostaria de viver. Ele veio. Hoje, vejo como muitas coisas que eu escrevi servem pra mim e fazem muito mais sentido agora. Hoje, quase todas as canções de amor fazem sentido. Prova disso é que foram 76 posts e o único texto que não era meu é justamente dela! Mais curioso ainda é que se estamos juntos hoje é principalmente graças a este blog, já que foi através dele que nos conhecemos e através dele que veio o encanto recíproco. Obrigado Volúpia Casual, obrigado por cada palavra, cada data, cada comentário, foi tudo muito válido.

Espero que venham muitos outros anos e meses. Espero que o sucesso venha. Espero que os leitores LEIAM e comentem. Espero que hoje eu não tenha que trabalhar até tarde. Espero que o Corinthians seja campeão. Espero que o romance dure. Espero que a volúpia continue e seja, cada vez, menos casual.

25 de mai. de 2009

Travesseiro e cobertor


Me aconcheguei entre seus seios cobertos por uma confortável blusinha rosa semi-decotada. Era muito mais uma cena de conforto do que erótica, mas foi impossível não querer estar dentro de você naquele momento. Foi impossível controlar meu sexo que palpitava por baixo da bermuda. Aquele momento durou uns três minutos ou, talvez, tivessem sido quinze ou vinte, sei lá... Cá entre nós, eu fiz questão de aproveitar cada segundo daquele instante. Quando acabou, não sei se estava me sentindo melhor ou pior por ter acabado. Me bateu uma súbita ansiedade quase desesperadora. Agora, vou ter que esperar a semana inteira pra deleitar suas roupas, invadir suas pernas, manchar seu lençol...

Mas... E se semana que vem não chegar? E se me deixar na quarta ou na quinta?
Não é algo lá tão impossível considerando a inconstância do mundo e a sua inconstância. Esse pensamento trouxe consigo uma súbita agonia e uma taquicardia que preferi não assumir. Passou.

Tentei uma ou quatro vezes, mas não consegui me lembrar qual foi a última conversa que tive com seu travesseiro nem o último segredo que contei para seu cobertor, mas alguns suspiros depois, pude ouvir ambos me chamando insistentemente. Era como se eles fizessem questão de minha presença. Essa sensação me deu um pouco de paz interior. Passou. Mas pelo menos, sentia que os objetos da sua casa me queriam por perto. Talvez sua cachorrinha de estimação e o video game do seu irmão também queiram. Uma ou outra coisa também devem gostar da minha presença. Você, talvez, de vez em quando, também goste, mesmo eu não estando sendo nem de longe o homem que gostaria de ser.

Arrumei de qualquer jeito a mochila que sempre levo, esqueci alguma coisa ou outra em seu quarto - talvez, propositalmente, pra ter a certeza de que vou voltar pra buscar - e embarquei. Dentro de três ou cinco horas estaria em casa, dormiria uns trinta ou cinquenta minutos e iria para o trabalho. Pronto. Começou de novo. Estou sendo vencido pelo sono. Talvez, nem consiga terminar de escrever até o final. Acredito que dentro dos próximos instantes, irei apagar aqui no onib