6 de nov. de 2009

Míopes

Não se desespere não, amor

Não se desespere não, amor
Com a falta de brilho de um dia sem cor
Com a cebola escancarada no bife
Com os programas de computador
Com o salário que não dura meio mês
Com o professor que tanto te estressa
Com a segunda-feira que não cessa
Com os tais processos trabalhistas
Os punguistas, os contrabandistas,
Com as fotos sem retoque
Com todo meu estado de choque
Com as frases atravessadas
Com a distância de nossas calçadas
Não se desespere não, amor,
Pois não há frustração que não se repare
Tão pouco há mal que nunca termine
Não se desespere não, amor
Amanhã estréia um novo dia
E depois, um outro e outros mais
Incalculável sucessão de tardes e risos
Um horizonte ilimitado para nossos olhos míopes.

5 de nov. de 2009

Prelúdios da falta

Se...

Ela anda esquecida. Ela anda distante. Ela anda irritada.

Será que mando flores? Será que mando chocolates? Mando um cartão bem impresso com acabamento especial? Faço-lhe um poema? Escrevo uma carta e mando pelo correio? E se ela não gostar?
Será que ligo? E se ela não quiser falar?
Convido pra jantar? Chamo pra ir viajar? E se ela recusar?
Será que digo que estou precisando dela? Será que peço mais atenção? E se ela se incomodar, achar que estou cobrando demais?
Será que choro? Será que rezo? Será que peço conselho a algum amigo? Será que me calo? Será que me deito? E se nada disso der certo?
Será que ela volta? Será que ela me abraça? Será que ela me beija? Será que ela se entrega de novo? E se ela já não estiver disposta?
O que eu falo pra ela? E se ela não gostar? O que eu faço? E se ela gostar? Como eu continuo?
E se ela desistir? E se ela se perder? Onde eu a encontro?
E se ela voltar? O que eu faço primeiro? O que eu faço depois? E se eu me perder?
Será que ela me aceita? Será que ela me entende? Será que ela me quer? E se não quiser?
Será que choro? Será que rezo? Será que peço conselho a algum amigo? Será que me calo? Será que me deito? E se nada disso der certo?
E se eu perder a graça? E se eu não valer a pena? E se eu não a fiz feliz? E se eu nunca souber? E se eu nunca esquecer?
E se o se nunca acabar?


Ninguém lá

Eu vi um homem que seguia lento
Já bem curvado com o pesar dos anos,
Trêmulas as mãos, os pés não mais levianos,
Rosto marcado, coração que ficou no tempo

Dele me aproximei com olhar atento
Pensei: "Quantas lutas, desenganos,
Causaram-lhe tanto abatimento?"
Me reconheci naquele olhar

E ele prosseguia lentamente
Tão solitário em meio a tanta gente
Arrastando a sua história sufocada

Será que teve filhos?
Não vi nenhum ali te dando a mão
Talvez, seu amor se foi na juventude

Ele não a esqueceu.

27 de out. de 2009

O bêbado e a senhora

Pelo seu querido binóculo, Ezequiel observava a vida dos outros passando. A dele já havia passado. Observar a rotina das pessoas fazia dele mais humano e menos besta. Aquele hábito mantinha-o sóbrio, quase no limite de atravessar a linha da loucura, mas ainda sóbrio. Vez ou outra, desejava enlouquecer e viver no mundo que ele havia criado. Vez ou outra, ele sentia vergonha, angústia, desespero, medo, frio, fome, repulsa e sono. Na maioria das vezes, ele só observava a vergonha, angústia, desespero, medo, frio, fome, repulsa e sono das pessoas.

Nesses sabe-se-lá-quantos-anos de rua, notou que o paulistano é paciente e solitário. Paulistano espera o semáforo abrir, espera o trânsito andar, espera um lugar no restaurante, uma vaga no estacionamento, a fila no banco, a fila na loja, outra fila pra comprar o ingresso do cinema ou do jogo do seu time, espera pra ter alguns centímetros quadrados no ónibus e no metrô, espera seu lugar ao sol, espera a garoa das 6 da tarde, o fim-de-semana chegar pra poder trabalhar mais em casa, as férias pra fazer entrevistas e mudar de emprego, espera dar o horário do rodízio pra ir trabalhar, espera o chefe ir embora pra poder ir pra casa, o aumento pra poder comemorar, espera o sol pra descer a serra, a madrugada pra poder dormir, a doença pra ir ao médico, a morte pra viver a vida... Paulistano é rodeado por milhões de pessoas, mas é tão sozinho que Ezequiel não conseguiu achar um exemplo comparável. Todo mundo se olha. Ninguém se enxerga.

Ezequiel enxergava.

Dali de seu canto, na calçada de uma loja de pneus, a um quarteirão do Elevado Presidente Costa e Silva - o Minhocão - presenciou um beberrão falando de Deus, pregando a bíblia, falando de salvação, de pecado, de paz, amor e a graça de viver. Discursou alto por vários minutos, repetindo várias vezes determinados salmos e se embaralhando em algumas frase. "Deus é pai. Deus é a salvação de todas as almas e de todos os corações. Confia em Deus. Confia. Deus salva!" - dizia ele. Os passantes e moradores olhavam com ar de curiosidade e vergonha alheia, mas a pressa não permitia que eles fizessem mais do que isso. De repente, uma senhora gorducha sai da portaria do prédio e começa a reclamar com o tal "pastor andante". A reação dele, diante da situação, foi nada diferente do esperado: violenta. Com dois pontapés e a socos derrubou na calçada a pobre senhora. Ela bateu com força a cabeça no chão e ficou lá se debatendo. O pregador da paz terminou por causar o caos. Enquanto a senhora ficava a gritar de raiva e dor, o bêbado saiu dali. Nem sequer foi correndo. Ninguém foi ajudar a senhora. Ninguém foi atrás do cara. Simples assim.


Depois de alguns minutos, Ezequiel foi até lá ver como a senhora estava.

21 de out. de 2009

católico

c a s a m e n t o

casei de véu e grinalda
eu de branco, ele também
em suas mãos, o par de alianças douradas
nas minhas, um buquê de lírios, delírios
na minha cabeça, um pescoço leve
na dele, anseios pela noite de núpcias


e que venha a lua de mel

6 de out. de 2009

Transeunte

Jogou aquela tralha toda na calçada e decidiu que chamaria aquele canto de lar. Um colchão velho, um cobertor mais velho ainda, um par de chinelos sujos e maltratados, botas gastas, meia dúzia de roupas, dois bonés e um binóculo. Este último, por sua vez, ele havia encontrado no lixo em bom estado e carregava sempre consigo. A dignidade ele havia deixado para trás, há vários quarteirões dali.

Com o dinheiro que arrecadou com a esmola do dia, foi até a lanchonete da esquina, comprou um pão com presunto e o resto de cachaça. Saiu de lá se apoiando no ócio e quase tropeçou quatro vezes, mexeu com duas moças que passavam, clamou pelas putas do puteiro ali ao lado, ensaiou uma dança sem música, um discurso sem platéia, sentou em seu canto e se pôs a bater uma punheta ali mesmo. Era ele e seu momento egoísta de prazer. Pronto. Estava realizado por hoje. Podia dormir em paz.

Acordou no susto e viu carros. Muitos carros. Quase mais carros do que pessoas. Buzinasgritospassosmotoresfreiadastropeçosconversascelularestocandobuzinasemaisbuzinascaos. Estava tudo ali ao mesmo tempo. Três crianças fumavam crack logo ali, enquanto outras duas pediam esmola no semáforo.
Ezequiel nem chamava mais tanta atenção. Vários outros como ele transitavam naquela rua. Subitamente, ele havia até recuperado seu nome. Pegou o binóculo e começou a observar os detalhes. Naquele momento, ele era o único que enxergava.

11 de set. de 2009

Ausência

Acordei às 3 e 47 com uma ligação no celular. Era meu anjo da guarda se queixando sobre minha inquestionável desatenção. Parecia tão perplexo, tão perdido que as palavras vinham soltas, ficavam no ar. Depois dessa ligação, eu senti um breve mal-estar. Senti a janela do quarto tremer e, depois, parecia que alguém estava batendo. Ensaiei por alguns segundos mantendo meu rosto no travesseiro até que tomei coragem e olhei através das cortinas. Aparentemente, ninguém. Naquele instante, me veio um calafrio de cima a baixo. Levantei e fui beber água. Dei uma rápida volta no apartamento pra ver se encontrava algo atípico. Nada. Todos dormiam em paz. Deitei novamente e a sensação continuava. Cheguei a sentir algo gélido tocar rapidamente meu dorso. Passou logo em seguida. Comecei a prestar atenção nos ruídos na janela. Calculava se as batidas aconteciam no momento seguinte em que os carros passavam lá em baixo. Não aconteciam. Me preocupei em calcular a velocidade do vento lá fora. Mal tinha vento lá fora. Entendi que aquele incômodo deveria ser psicológico. Não havia nada de assombrado ali. Eram só paredes, janelas, alguns poucos móveis e muita angústia. Muita desatenção. Liguei pro meu anjo da guarda. Ele ainda estava perturbado. Tentei falar algumas breves palavras na tentativa de expressar um pouco o que estava sentindo. Não acho que tenha conseguido cumprir a missão, mas falar com ele me trouxe uma leve sensação de conforto e dever cumprido, mesmo que a conversa tenha dado a entender que ele queira ficar um tempo longe, descansando em sua nuvem, recuperando suas asas, de repente, até guardando outra pessoa. Desatenção deve dar muito trabalho pra anjo da guarda. Eu não o culpo por isso.

Eis que hoje eu acordei pela metade. Acordei meio sem vontade. Eis que hoje o dia não nasceu. Eu que achei que não precisava de anjo da guarda, lamentei a ausência do meu.

21 de ago. de 2009

Gerundismo

Hoje acordei cheio de gerundismo. Vou estar dormindo mais 5 minutos depois de acordar pela terceira vez. Vou estar tomando um banho quente e demorado pra aquecer esse frio que até parece inverno. Vou estar assassinando o motoqueiro filhodaputa que tentou passar onde não cabia e arranhou meu carro. Vou estar ficando stressado com o trânsito louco dessa cidade maluca. Vou estar sentindo falta do sorriso da menina, das brincadeiras bobas de touro mecânico e de cheirar o feromônio por baixo dos braços nus. Vou estar ficando aliviado com o fim do job atrasado. Vou estar ficando feliz com o amigo ganhando aumento, o outro sendo contratado, o outro pegando trabalho extra e eu descansando. Vou estar ficando feliz com a ligação do pai. Vou estar comemorando o show de uma banda que queria tanto ver. Vou estar empolgando com a decoração do quarto, com a chegada do fim-de-semana, com a proximidade da estação. Vou estar ficando cansado de tanto gerundismo, de tanta repetição. Vou estar confessando que tudo isso foi só uma intenção de romper com meu hiato literário-criativo e jogar um pouco de palavras ao vento. Vou estar confessando que vomitar palavras me faz bem.

22 de jul. de 2009

Corro

Corro pra encontrar a sorte Corro da sombra Corro da luz Corro de quem me persegue Quando canso caminho Nunca paro Nunca paro Corri de chuva Corri de sol Corri de calor Corri de frio Corri da mãe professora primo tia vó Corri de bandido De amigo brincando de pega pega Corri de física química biologia Corri pra pegar pipa Corri jogando bola Corri atrás de estrela de disco voador de galinha d' angola Corri pra pegar ônibus Corri pra chegar cedo Corri pra perder peso Corri do que desconhecia Corri de quem nem me via Corri por correr Tropecei caí levantei Corri tropecei caí feio machuquei mais feio ainda levantei Corri por medo por raiva por pressa por vergonha Corri da morte Corri da afronta Corri da falta de perspectiva Corri da incerteza Corri da certeza de não ter certeza Corri da mediocridade Corri pra ver o mar Corri sozinho Corri de quem correu sozinho a vida inteira Corri de sei lá o que de sei lá onde Sei lá Cansei Caminhei pensando em voltar a correr Corri do ódio Corri do amor Tropecei não caí continuei correndo Corri pra te encontrar Encontrei É minha última chance Corro Nunca paro Nunca paro

23 de jun. de 2009

Assédio e egoísmo

Talvez

Talvez você nem saiba
Que quando você passa
A rua inteirinha se faz acordar
A rua inteirinha te anuncia

Talvez você se esqueça
Que caso eu mereça
A vila inteirinha vai conspirar
A vila inteirinha te assedia

Talvez você me entenda
Quando eu criar a cena
Que a cidade inteirinha vai elogiar
Que a cidade inteirinha me veja

Construí uma avenida
Com palavras e aquarela
Coloquei seu nome nela
E fechei com fino estar

Usei cubismo em duotone
Com paletas de egoísmo
Foi aquém do que eu preciso
Pra só eu te ver passar.

17 de jun. de 2009

Mais uma comemoração


Até

O mar
Ah, mar...
Amar
Martírio
Mar lírio
Amortecer
Amor tecer
Amortizar
A morte usar
Amor te dar
Até a morte