11 de mar. de 2010

Retirou

A cura

Retirou todas as fotos
Escondeu meu porta-retrato
Se desfez dos belos fatos
Praticou a arte do desapego
Foi sem medo, tirou o anel

Sei que leu meus versos
Tão singelos, tão seus
Sei que viu meus recados
Tão jogados, tão meus
Talvez, nem se encante mais

Pedi que o amanhã chegasse
Que o vento retornasse
Pedi luz de velas, mais um mês
Traguei a sorte, joguei xadrez e
Levei um cheque do freguês

Comprei cebola pra temperar a janta
Comprei roupa pra alimentar o ego
Andava tão magro o coitado
Decidi deixar o tempo avisar
Se vai cair, se vai curar.

10 de mar. de 2010

Escuta

Aquela
Alegria

Toda
Prova
De amor
É pouca
Boca
Com
Boca
Unhas
Nas
Costas
Dentes
Na nuca
Dedos
Na fruta
Me escuta
Me escuta
Quero
De novo
O olho
Que brilha
O sorriso
Que trilha
Essa
Alegria
Aquela
Alegria
De outro
Dia.

O troco

Contei todos os ladrilhos, todos os mendigos,
Todas as claves da Avenida São João
Ouvi todas as buzinas, cruzei as esquinas
Olhei móveis usados, cofres enferrujados,
Comi um lanche duvidoso, reclamei do sol
Lá do alto do viaduto, helicópteros
Contemplando o trânsito lento, enquanto
Aqui em baixo, vários corações acelerados
Os trinta e três que estavam encostados
Continuaram deitados depois do tiro
Foi só um estalo, só um grito que se ouviu
Ninguém parou, ninguém sentiu
Segue a rotina, Avenida São João
Deixei alguns trocados no chão.

3 de mar. de 2010

Desatenção

Receio do remorso

Ah... Essas cerdas estão dilacerando
As válvulas de escape, as bobinas
As marcas, as intenções bem vindas

Livre da cegueira das verdades cretinas
Livre dos maldizeres, dos guerreiros cansados
Lamúrias de amor por não querer outras meninas,

Intenso olhar de quem não sabe mais
Inventar poema, buscar quase paz
Imediatamente, o sono bate a sua porta

Naquela vez, era medo da derrota
Neve na porta, o frio não importa
Nessa sina, resta pele, osso e carne viva

E toda essa carícia que me cativa
Esqueça todas as mágoas, toda essa mira
Esvazie os potes, retire o que resta de ira

Perdoa os desavisados, os lerdos, os afastados
Perdoa os diferentes, os fracos, os desviados
Pensa na mudança, na esperança, na semelhança

Pensa na luta passada, na foto guardada
Pensa na mão que não larga a outra mão consolada
Pisa nos cacos, ressuscita a doçura de menina.

Refém

Perdeu o emprego, perdeu a voz
Perdeu o milagre do dia ensolarado
Perdeu alguns trocados a capa vermelha
A armadura de ferro o dedo de agulha
Perdeu a vontade de ter coragem
Derramou a gasolina de seguir em frente
Refém do tempo, refém do vento...

19 de fev. de 2010

Como os meus

Tanto faz

E foi assim
Que a vida ofereceu a ti tantos troféus
De prêmios tão pequenos,
Bem pequenos,
Mais que eu

Sei que te quero forte,
Sei que te quero fraca,
Eu quero teu afago,
Eu quero o teu tapa
Eu busco o teu beijo,
Respeito o teu choro
De tão infantil e tolo,
Receitei o meu remédio
Matei tua anemia,
Dei bom dia,
Tirei teu sono
Eu aceito você larga,
Espero você curta,
Eu espero teu endosso,
Aceito você turva,
Entendo a tua culpa,
Peguei tua dor no colo,
Roubei tua mediunidade,
Uni com boa vontade,
Aprendi uma oração pra
Dar vazão ao que eu sentia
Sei que eu te quero nobre,
Sei que eu te quero pobre,
Não esqueço os teus seios,
Suas curvas,
Seus apelos,
Sei que eu te quero linda,
Sei que eu te quero feia,
Eu quero você jovem,
Meia idade,
Idade inteira
Invado o teu sexo,
Te apresento nossos filhos
Roubo teu travesseiro,
Empresto o meu colo,
Ombro e pernas torturadas
Por toda essa ladeira,
Essa cadeira, essa escada
Sei que eu te quero inteira,
Aceito os teus pedaços
Sei que eu te quero viva
Não suporto você longe
Prefiro minha alergia
Que a saudade de outro dia

E foi assim
Que a vida ofereceu a ti tantos troféus
De prêmios tão pequenos,
Bem pequenos,
Como os meus.

9 de fev. de 2010

Breves relatos 5 - Amarelou

Texto e Design: Leo Curcino

5 de fev. de 2010

Breves relatos 4 - Fome

Texto e Design: Leo Curcino

4 de fev. de 2010

Breves relatos 3 - São Longe de lá

Texto e Design: Leo Curcino

29 de jan. de 2010

Breves relatos 1 - Portão

Texto e Design: Leo Curcino