23 de nov de 2016

Quisera eu

Ah, linda moça, eu fico querendo, mas tenho receio de ir te falar
Vai que está ocupada ou dando risada com alguém acolá
Mas quando eu bebo uma dose, arranjo coragem pra te procurar
Arrisco, aperto os botões, falo qualquer bordão pra te impressionar

Você me dá um barato do balaco baco, que nem ácido deu
Quisera entender esse lance, se vai virar romance, quisera eu
Chamei pra pegar um cinema, armar um esquema, sair pra jantar
Na volta, errei o caminho pra mais um pouquinho do seu lado ficar

Ah, me perdoa, é que contigo, o tempo voa
Já são 5 da manhã, essa nossa embriaguez destoa
E se eu acordar, sei que vou estar rindo à toa, à toa

Ah, me perdoa, é que contigo, a direita esquerda
Acabei de chegar na minha casa, mas bem que queria estar na sua
Amanhã já chegou, que sonho bom.

14 de dez de 2015

Menos nós

Tenho saudade do tempo, quando tinha menos nós
Do tempo que gente não valia mais que bicho,
Que prédio não valia mais que árvore,
Que lua valia mais que LED
E todo mundo via o outro.

Que bom o tempo que tinha menos nós.
Que bom o tempo que éramos menos sós.

10 de dez de 2015

Tristeza triste

A tristeza é triste.

Durante toda a noite, me veio uma tristeza, que nem as maiores alegrias conseguiriam anular. Tentei cerveja, video game, filme, loteria... Tentei trabalho, tentei academia, tentei dar voltas pelo quarteirão... Nada foi capaz de espantar essa vontade do choro. E o pior é que nem chorar eu pude. Ajoelhei perto da cama, pensei nos maiores dramas da humanidade, mas o choro não veio. Que tristeza triste é essa, que nem a lágrima faz cair?

Liguei, mandei mensagem, parece que não me ama mais, sei lá. Vai ver, amanhã chega com o abraço maior do mundo e parece que nada aconteceu, parece que a tristeza nem veio, foi só noite mal dormida, só sonho ruim de segunda-feira pós férias. Mas não, a tristeza é triste.

E como é que tristeza há de ser feliz afinal? Tem tempestade que precede o céu azul. Tem tempestade, que é só tempestade mesmo. Vem em noite de festa, molha os sapatos, estraga o penteado, elimina o perfume e vai embora só de manhã, deixando o domingo cinza. Quer coisa mais triste que domingo cinza?

A vida é epopeia anunciada. Sem heróis, sem glórias. Você é tão bom quanto o dia de ontem.

14 de jul de 2014

Sexta, sábado, domingo

Acordei e fui testemunha de um céu lisérgico
Desses que nem a cortina quer esconder
Tinha dormido bem e era sábado,
Mas a cama vazia dava o tom de cinza
Cinza quase castanho, o azul desbotou
Minha mão tateou o vácuo, despertador tocou
Tinha mensagem sua, de texto, de voz
Sem teu corpo ali do lado, ao menos dados
Justo hoje que eu queria fatos e fotos
Sempre quero, coleciono prints de você
Preferiria colecionar abraços sem partida,
Breves retornos, beijos sem despedida
Nesse romance à prazo, aceito pagar à vista
Veio a quinta, é só amanhecer pra você chegar
Sábado volta a ser sábado e o domingo azul
Semana que vem é triste, você não vem
É tempo do azul virar cinza e o sábado domingo.

9 de jul de 2014

O festival

Foi em 2011, mas tanto faz,
Podia ter sido 2008 ou 7
Naquele festival de cinema,
Foi a melhor cena que eu vi

E não estava em nenhum filme
Não disputou nenhum prêmio
Pode até ter escapado das lentes,
Mas meus olhos captaram em 24 frames

Virou um belo plano sequência, one shot
Um take e já merecia até tapete vermelho,
Leão em Cannes, Urso em Berlim

Passei os próximos anos querendo um remake
Tentei, mandei roteiro, não vinha
Não tinha disponibilidade a atriz principal

Escrevi outro plot, criei outro shot
Suspirei quando aceitou fazer meu filme
A musa veio, produzi e filmei. FICA?

20 de jan de 2014

É

Quando eu te vi subindo as escadas do Hortomercado, vindo ao meu encontro, eu torci com todas as minhas forças que você fosse uma chata, fosse metida a besta, gostasse só de música ruim, ficasse o tempo todo no celular, que o seu perfume me desse alergia, mas não, nada disso. E você ainda tinha que chegar com aquele sorriso de deixar a vida em slow motion por alguns instantes.

Mais tarde, quando saímos pra jantar, eu torci pra nossa conversa não fluir e os dois ficarem olhando para o relógio a cada dois minutos até que um começasse a bocejar e o outro pedisse a conta. Eu tentei te olhar e te achar feia. Quando te beijei, torci pra não gostar, pra ser sem graça, sem gosto, sem vontade. Mas não, nada disso. E você continuava com aquele sorriso de deixar cada segundo durando quase um minuto, sem que a gente perceba o tempo passando.

No dia seguinte, me restou torcer pra que eu não sentisse vontade de te beijar de novo, que fosse coisa das várias cervejas da noite anterior. Torci pra perceber que você é fresca, te achar burrinha, sem conteúdo, pra que você fosse do tipo que disputa minha atenção com os amigos ou do tipo que fica pedindo pra gente se sentar bem na hora do show. Mas não, nada disso. Ficou ali esbanjando simpatia e, vez ou outra, me olhando com aquele olhar de "vem cá".

No domingo, já não tinha mais esperanças, já não torcia. Quis que você se atrasasse no encontro pra ver se ficava com um pouco de raiva de você, mas você chegou primeiro que eu. Transformou um simples passeio no shopping center na coisa mais divertida do mundo. Quase perdemos a hora da sessão de um filme que eu queria muito ver por causa da prosa solta. Era agora. Você tinha que ser do tipo que falava o filme inteiro, dormisse e perguntava o que tinha perdido. Era a minha última chance de não gostar de você. Mas não, claro que não. Fez foi ficar me fazendo carinho na mão o filme inteiro.

É... É.

Hoje, antes de partir, tive um sonho ruim com você. A gente precisa mesmo dessas fugas de realidade, de vez em quando.

3 de dez de 2013

Intimidade

Eu detesto quando gente que eu não tenho intimidade age como se fôssemos íntimos. Detesto quando me chamam de amor se me conheceram no dia anterior. Soa falso até na hora do sexo. Também não gosto de sair abraçando quem eu mal conheço. Eu até que não me importo de conversar com estranhos eventualmente, mas não todo dia e nem em todo lugar. Tem dias que eu quero somente ficar só. E se vou para algum lugar que não estou gostando de estar, eu não consigo ser político e fingir que quero estar ali. Prefiro pegar minhas coisas e ir pra casa. Sempre há algum filme bom que eu ainda não vi. Sempre tem alguém online que eu goste de falar. Eu sei que pode soar como antipático, mas não é isso. Eu só não sou do tipo que ama todo mundo e gosta de estar com qualquer um pra não ficar sozinho. Tem certas coisas que eu, inclusive, prefiro fazer sozinho. Não. Eu realmente não faço questão de todo mundo, mas faço muita questão das pessoas que faço questão. Caso contrário, prefiro até evitar um segundo encontro.

1 de dez de 2013

Ruivos

Hoje, de novo, pensei nos seus ruivos e
Desejei encontrar alguns fios no travesseiro
Depois no carro, na comida, no banheiro
Quis entrar nas suas fotos publicadas
Todas tão distintas, tão elogiadas,
Só para fitar de perto suas curvas,
Suas lutas, suas rotas e te roubar
Daquele que hoje anda ao seu lado
Queria eu te levar pro mundo,
Caminhar contigo pelas calçadas,
Pelas avenidas, pelas madrugadas
Te mostrar o Empire, o MoMA, o Guggenhein,
Já que me falta o juízo, eu podia ter, ao menos, a sorte
De descer seu corpo do Upper a Dowtown
Cruzar a ponte e voltar de novo
Até você ficar realizada, até se cansar
Te fazer musa, like a Hollywood superstar
Lembra que me prometeu fazer aquele filme junky
E também sair comigo, assim que eu voltar
Não mordo, não te ataco, eu hei de aguentar
Ah, ruiva, mais bela que a vista do Top of the Rock
Vou pôr seu nome nas marquees da Broadway
E depois, debaixo do meu lençol, do meu teto
Enfim, não custa sonhar, anyway, eu sei.

2 de set de 2013

Quase sem

Eu acho que posso me acostumar
a viver sem quase tudo nessa vida

Sem dinheiro
Sem carro
Sem escova de dente
Sem chuveiro de água quente
Sem roupa passada
Sem tênis limpo
Sem a cama arrumada
Sem uma refeição decente
Sem elevador
Sem pente
Sem cordas
Sem Facebook
Sem postar foto no Instagram
Sem bateria no celular
Sem "x" e "R1"
Sem açúcar
Sem sal
Sem o futebol de Quarta
Sem sábado e domingo
Sem graça
Até sem moça

Mas não sem alma
Essa que eu deixei ali
Na bituca que joguei no chão
Apagada, desprezada

26 de mai de 2013

Calçadas

Já maltratei calçada, quase nada
Vi gente disposta, muita gente cansada
Mas fiquei até o último brilho da madrugada
É que o tempo mata, mas antes destrata
Esse maldito fugaz de longos anseios
Alguns tão pobres, alguns devaneios
Uns mais impossíveis que outros
Outros mais calados que uns
O que a gente não leva, arrasta
Por isso há de se sentir bem sentido
Até o que se sente não sentir mais.

Do ponto final pra frente
Outros frames, outras histórias
Nem tudo festa, nem tudo glória
Memórias? Nem tão cegas,
Nem tão claras quanto esperava
Umas bem quistas, outras massacradas
Umas tão tortas quanto supervalorizadas
Todas necessárias, vadias desesperadas.