26 de dez de 2010

Queridas epifanias

Ensaiei versos cantados
Tateei belas palavras
Busquei  rendondilhas
Frases repetidas,
Pequenas alegrias,
A visão do firmamento
Não vi mais, nem ouvi
Não li, não senti
Saudade das nossas
Queridas epifanias,
As tardes de maresia,
As brincadeiras no colchão,
Nossas roupas pelo chão,
Os cachorros pela casa,
Todas as horas de estrada
Não vi mais, nem ouvi
Não li, não senti.

22 de dez de 2010

O carrinho amarelo

Quando eu era menino, bem menino, tinha uns 5 ou 6 anos de idade, eu morava numa pequena cidade lá do interiorzão de Minas e costumava brincar com o Edu, meu vizinho, um garotinho que tinha mais ou menos a minha idade. Lembro que o Edu ia até a minha casa e ficávamos brincando de carrinho no quintal. Ele levava uns dois ou três carrinhos dele e eu pegava os que eu tinha, que não eram muitos também. Dentre esses, tinha um amarelo que era o meu preferido. Ele era realmente muito mais bonito que os outros e, por conta isso, o Edu sempre pedia pra brincar com ele. Eu ficava meio chateado, mas acabava deixando o Edu brincar com ele e pegava um outro dele, que era o segundo mais bonito.

Certa vez, fomos começar a brincar e eu disse pro Edu que naquele dia, eu iria brincar com o meu carrinho amarelo, já que eu nunca brincava com ele. O Edu, em uma negativa firme e decidida, contrariado, se levantou e disse que desse jeito, ele não brincava, que só brincava se fosse com o amarelo. Eu tentei convencê-lo de fazer diferente, já que eu sempre deixava ele brincar com o carrinho, mas ele foi irredutível e, como eu estava muito a fim de brincar, acabei cedendo.

Brincamos durante um bom tempo, que não saberia dizer quanto, já que o dia passa muito mais rápido na infância e depois o Edu foi embora. No dia seguinte, o Edu veio cedo com os carrinhos, me chamando pra brincar. Na hora de escolher o carrinho que cada um iria controlar, lá foi ele de novo pegando o meu carrinho amarelo preferido. Eu olhei pra ele com cara de bravo e lembro dele ter dito algo como: "Ah... Nem vem. Para de reclamar e vamos brincar logo, poxa!". E essa situação se repetiu mais alguns dias. Eu acabava me divertindo brincando com o Edu, mas sempre ficava chateado, porque ele nunca me deixava brincar com o meu carrinho amarelo.

Eis que um dia, eu bati o pé e disse que iria ficar com o amarelo, pois nunca tinha brincado com ele. O Edu pegou os carrinhos dele contrariado, saiu dizendo que eu era um traíra ou qualquer coisa do tipo e disse que não brincaria comigo nunca mais, que a partir daquele dia, eu não era mais amigo dele.

Mais tarde, fui contar pra minha mãe o que tinha acontecido e ela ficou muito brava comigo. Ela me deu uma bronca daquelas que eu nunca esqueci. "Mas o que é isso que você tá fazendo? Amizade não se compra! Isso é um absurdo! Como você se prestou a um papel desses? Se o Eduardo gostasse mesmo de você, ele iria querer brincar, independente de você emprestar ou não o seu carrinho. Quando a pessoa gosta mesmo de você, ela cede também, não é assim. Se você fizer isso de novo, vai tomar uma surra pra largar de ser bobo. Tá avisado!" - disse a minha mãe quase gritando, totalmente nervosa. Acho que foi o jeito dela de tentar me ensinar a dizer não.

Depois desse dia, o Edu não apareceu mais lá em casa. Eu fiquei bem triste pelo sumiço dele, porque não tinha mais com quem brincar. Meu irmão era bem pequeno naquela época, devia ter uns 2 anos de idade, e não sabia brincar de carrinho. Lembro de ter ficado um bom tempo vendo televisão e brincando sozinho. Eu pegava pedaços de tijolo das casas em construção e desenhava pistas de corrida no quintal, como se fossem circuitos de competição para os meus carrinhos. Eu era o piloto do carro amarelo e sempre era campeão. Foi nessa época que meu pai me deu um Atari de presente de natal e até jogava comigo, as vezes, pra eu não ficar só brincando sozinho.

Depois, veio a escolinha e comecei a fazer novos amiguinhos, que aceitavam brincar comigo mesmo se eu não emprestasse meu carrinho favorito. E hoje, me pergunto: será que aprendi a dizer não? Saudades de olhar com os olhos daquele menino.

16 de dez de 2010

Vinte e três

Era para ser um dia de fé renovada
Um dia de dezembro, mais um mês
A verdade foi perdida, alterada
Busquei vinte e três motivos, vinte e três
Escolhi vinte e três poemas de amor, mandei
Pensei em vinte e três palavras,
Vinte e três momentos e anseios,
Acendi vinte e três velas e, eu, ateu,
Rezei vinte e três minutos ajoelhado
Vinte e três contados, de olhos fechados
Logo eu que sempre busquei a verdade
Acabei deixando faltar o que não devia
Falta de amor não teve, no máximo, afasia
Ah, se eu tivesse mais um dia, mais um dia...

11 de dez de 2010

Por um segundo

Prefiro o teu excesso a tua ausência
Prefiro a tua bronca a essa paz
Prefiro tua indecisão, o teu impulso,
Teu discurso de ira, seu tanto faz
O pulso acelerado, o coração magoado
Deixa a porta aberta e finja que esqueceu
Ninguém vai saber, nem eu
E se por um segundo eu entrar
Valeu a pena, valeu.

10 de dez de 2010

Obstante

Eu batia na porta querendo entrar e ela trancava, colocava o armário na frente, fechava a janela. Tem algo assim muito diferente, um coração descrente. Não é o meu, obstante, continuo andando, vendo a luz. A estrada é íngreme e cheia de cacos, objetos jogados. Acho que vi uma foto nossa ali no chão, deixada. Fui resgatando tudo de importante que encontrei. Minha calça preta, meu copo, o chaveiro que ela nunca usou. Vi o cão de pelúcia, o Sansão, até um sorriso no chão. Será que ela abandonou até os risos? Até as frases? Foram tantas frases, tantas palavras diminutivas. Todas pelo chão, decidiu soltar minha mão, enfim. Será que ainda se lembra dos fatos? Dos acasos? Será que ela lembra da minha cara de desespero quando o assunto era fim? Do medo de perdê-la? Do medo de não tê-la? Será que pensa que menti? Será que pensa que fingi? De tanto tentar não perder, perdi, se foi, partiu. Demorei tempo demais para chegar até o final, na tentativa tresloucada de salvar tudo. Nem sei se salvei. Talvez tenha faltado o mais importante. -Ei senhor, você viu um coração por aí? -Não vi não, rapaz. Não passou por aqui, já procurou no Morro do Adeus? - Não procurei não senhor, o Morro do Adeus é tão longe e tão definitivo. Prefiro acreditar que, no máximo, ele foi para o Morro do Até Logo. Ah... Mas como eu queria que estivesse aqui no Morro da Saudade. Saudade.