Mal-me-quer
28 de jun. de 2008
A prosa dele com ele 2

Repentinamente, veio à tona cada segundo do seu ano. E olha que o ano já estava na metade e muita coisa tinha acontecido e desacontecido. Logo em seguida, flashs de toda a sua vida apareciam len-ta-men-te, depois rapidamente, depois len-ta-men-te de novo e rapidamente... Naquele momento, ele visualizou o seu futuro e não gostou muito do que viu. Ou talvez, tenha gostado, não sei. A confusão naquele quarto estava tão concreta quanto sua cama e o armário. Sua ânsia por auto-afirmação era tamanha que ele evitava se ver no espelho enquanto não se convencesse de que era bom o suficiente pro que o esperava lá fora.
Era domingo e ele havia tirado o dia pra decidir o que queria fazer da vida. Decidiu que, antes de qualquer coisa, ele passaria a ser a sua maior prioridade. Ele havia decidido, finalmente, deixar de ser coadjuvante para ser o protagonista do seu filme (não me lembro onde vi essa citação, mas acho que se encaixa perfeitamente aqui). No mesmo instante, lembrou de tudo que já havia priorizado antes. A maioria daquelas coisas não fazia o menor sentido agora. A maioria daquelas pessoas, ele nunca mais viu e, talvez, nunca mais verá. Sentiu uma leve vergonha por ter se entregado tanto, por ter sido tão omisso, ter sido tão emocional e nada racional. Quanto disparate! Perdera muito tempo gostando de pessoas não gostáveis, conhecendo pessoas não conhecíveis e se relacionando com pessoas não relacionáveis. Mas será? Não seria muita prepotência achar que o problema sempre está nos outros? Talvez seja muita pretensão, mas ele acreditava, invariavelmente, que a culpa jamais foi dele. Pelo menos isso ele ainda tinha de sobra. Ninguém jamais conseguiu convencê-lo de que foi ele o responsável por cada fato marcado, por cada momento marcante, por cada segundo cortante...
27 de jun. de 2008
A prosa dele com ele 1
Hoje ele acordou querendo ser forte. Escovou os dentes com força. Mastigou com força o pão com manteiga. Fechou com força a porta da sala. Apertou com força o botão do elevador. Força, excesso de força. O que ele pretendia com tudo aquilo? O que ele queria provar pra quem? Ele estava se distanciando das pessoas importantes, cada dia mais. Seguia uma rotina formal do-trabalho-pra-casa-da-casa-pro-trabalho. Pensando bem, será que essas pessoas importantes são realmente importantes? Será que elas realmente se importam? O fato é que agora era nada além de seu quarto e suas velhas anotações. O que ele tanto anotava? O que ele tanto pensava? Afinal, ele sempre foi tão acostumado a nunca ter razão. Por que isso o incomoda tanto agora? A verdade é que uma hora cansa. Nem o mais inerte dos seres humanos consegue viver só de imbróglios sem que isso afete consideravelmente seu estado emocional. E ele sabe que o que é dramático hoje pode ser saudade amanhã. E a saudade um dia aperta. Um dia ela há de consumir todo o seu esforço por mais desesperado que ele seja, até que um dia, de repente, ela vai embora assim como veio.
Algumas semanas se passaram depois do primeiro ataque de saudade. Veio o segundo, o terceiro, o quinto... Ela vinha e voltava na mesma frequência que o beija-flor que as vezes visitava sua sacada. A frequência foi diminuindo progressivamente, mas quando a saudade apertava, apertava muito mais forte que antes. Eram espasmos que o faziam ter vontade de dar voltas pelo quarteirão até morrer de cansaço e repensar toda a rotina do mês. Mas afinal, a rotina do mês que entra não é a mesma do mês que foi?
Já não anotava tantas coisas como antes. Já não pensava em tantas coisas como antes. Ele passara a ser a esperança de ser diferente de tudo que fora um dia. Não queria mais ser ele mesmo porque isso implicava em ser exagerado e sincero, em ser impulsivo e discreto, quase transparente, em ser a sequência do que era ontem e ontem já passou... Hoje ele deveria ser diferente, pensar diferente, andar diferente, gostar diferente, sonhar diferente, querer diferente, porque afinal as pessoas devem ser volúveis (ou não?). Ele pelo menos nunca conheceu alguém que não fosse assim. Teria sido o acaso que o consola ou teria sido o destino que o mantém?
Algumas semanas se passaram depois do primeiro ataque de saudade. Veio o segundo, o terceiro, o quinto... Ela vinha e voltava na mesma frequência que o beija-flor que as vezes visitava sua sacada. A frequência foi diminuindo progressivamente, mas quando a saudade apertava, apertava muito mais forte que antes. Eram espasmos que o faziam ter vontade de dar voltas pelo quarteirão até morrer de cansaço e repensar toda a rotina do mês. Mas afinal, a rotina do mês que entra não é a mesma do mês que foi?

17 de jun. de 2008
Tão poucas
Pouco de muito mais
Atrevidas, mal faladas, tão perdidas,
Tão pesadas que já nem me canso mais
Foram tão poucas cartas
Mal escritas, insensatas, tão sentidas,
Tão caladas que já nem escondo mais
Foram tão poucas noites
Mal dormidas, tão passadas, bem vividas,
Tão sanadas que já nem me encanto mais

Eu que quis ouvir respostas,
Busquei no aval minhas partidas,
Aceitei apostas, fiz investidas,
Que nostalgia é alcançar a si
Que agonia é se ver sem ir
Que pretensão é mudar sem estar,
É querer ficar, é mudar sem vir...
Foram tão poucas frases,
Nem tão ditas, tão usadas, escondidas,
Tão forçadas que já nem me sinto mais
Foram tão poucas fotos,
Mal batidas, desfocadas, tão tremidas,
Tão armadas que nem me lembro mais.
3 de jun. de 2008
Meu eu de ontem...
Eu descobri que gosto de mãos
Gosto de tê-las, de apalpá-las,
De senti-las e almejá-las
Gosto do conforto que me traz
Os seus dedos entre meus dedos,
Suas unhas, seus apegos...
Agora há pouco entendi tudo
E ao mesmo tempo, entendi nada
Passei a gostar ainda mais de Clarice
E entender melhor o que me disse
Passei a esquecer o que não conhecia
Descobrir o que já sabia
E agora que sei, confesso que tanto faz
Porque meu eu de hoje
Não é mais o meu eu de ontem
E confesso que agora tanto faz
Porque o meu eu de ontem
Talvez seja o meu eu de nunca mais.
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