19 de fev. de 2010

Como os meus

Tanto faz

E foi assim
Que a vida ofereceu a ti tantos troféus
De prêmios tão pequenos,
Bem pequenos,
Mais que eu

Sei que te quero forte,
Sei que te quero fraca,
Eu quero teu afago,
Eu quero o teu tapa
Eu busco o teu beijo,
Respeito o teu choro
De tão infantil e tolo,
Receitei o meu remédio
Matei tua anemia,
Dei bom dia,
Tirei teu sono
Eu aceito você larga,
Espero você curta,
Eu espero teu endosso,
Aceito você turva,
Entendo a tua culpa,
Peguei tua dor no colo,
Roubei tua mediunidade,
Uni com boa vontade,
Aprendi uma oração pra
Dar vazão ao que eu sentia
Sei que eu te quero nobre,
Sei que eu te quero pobre,
Não esqueço os teus seios,
Suas curvas,
Seus apelos,
Sei que eu te quero linda,
Sei que eu te quero feia,
Eu quero você jovem,
Meia idade,
Idade inteira
Invado o teu sexo,
Te apresento nossos filhos
Roubo teu travesseiro,
Empresto o meu colo,
Ombro e pernas torturadas
Por toda essa ladeira,
Essa cadeira, essa escada
Sei que eu te quero inteira,
Aceito os teus pedaços
Sei que eu te quero viva
Não suporto você longe
Prefiro minha alergia
Que a saudade de outro dia

E foi assim
Que a vida ofereceu a ti tantos troféus
De prêmios tão pequenos,
Bem pequenos,
Como os meus.

9 de fev. de 2010

Breves relatos 5 - Amarelou

Texto e Design: Leo Curcino

5 de fev. de 2010

Breves relatos 4 - Fome

Texto e Design: Leo Curcino

4 de fev. de 2010

Breves relatos 3 - São Longe de lá

Texto e Design: Leo Curcino

29 de jan. de 2010

Breves relatos 1 - Portão

Texto e Design: Leo Curcino

18 de jan. de 2010

40 anos

60 e poucos

Do alto dos meus 60 e poucos,

Vivi coisas pelas quais omitiria
Eu vi milagres, ouvi espíritos,
Presenciei assaltos e atropelamentos
Bati o carro quando passei no sinal verde
Saí ileso quando atravessei no vermelho
Morei em metrópole, morei no interior
Só vi o mar depois dos 20
Dei esmola, pedi aumento
Pedi demissão, fui demitido
Montei empresa, fechei empresa
Fiquei rico e torrei tudo em viagens
Urinei no Ganges e no Nilo
Fiquei entediado em Paris, Londres e Milão
Comi cogumelo em Amsterdam
Quebrei o braço esquiando em Bariloche
Desenhei mulher nua sem musa
Escrevi poema de amor sem amar
Escrevi poema de amor e entendi,
Depois que decidi te encontrar
Minha poesia ganhou rima
Ganhou ritmo, ganhou cor
Foram tantas brigas, tantas baixas,
Nada fez oscilar o teu sabor
Nada me fez guardar maior rancor

Você ainda carrega aquele sorriso de menina
Os olhos brilhantes e o corpo de miss
Pra acompanhar toda essa energia, só cafeína,
Ácido, pílula azul, anfetamina,
40 anos desejando a mesma boceta,
Mesma boca, mesma silhueta,
E que se dane o pudor que ainda me resta
Nesses anos que faltam, quero festa,
Quero mimos, quero festa,
Quero bisnetos pelo quintal,
Lençóis limpos no varal

Só pra eu ajudar a sujar e me lembrar
Dos tempos de infância,
seus tempos de
menstruação
Fazer música com aquele velho violão
Fazer arte, viver, ficar na memória,
Fazer parte, ser, fazer história.

7 de jan. de 2010

Tentou chegar

Subiu a serra

Subiu correndo aquela serra
Parou quando avistou o lindo mar
Cogitei subir logo em seguida,
Mas, talvez, alguém a espere lá
O sol ia descendo e ninguém vinha
O que fazia aquela menina sozinha?
Com certeza, outros já subiram
Provavelmente, todos já desceram
Outros querem subir agora,
Mas sinto que essa é a minha vez
Vou tentar, o que tenho a perder?
A subida é íngreme, o piso escorregadio,
A caminhada pode levar dias...
Será que consigo chegar até lá?
Será que ela ainda vai estar?
E se outro chegar primeiro?
Devem ser tantos pelo caminho...
Tentei, caminhei até cansar e
Procurei não contar as escorregadas,
Nem quantas vezes fiquei com fome,
Tomei chuva e pensei em voltar
Cheguei no dia 17 de janeiro
Ontem, alguém chegou primeiro,
Mas quando cheguei, não estava lá
Ela sorriu e estranhou meu sotaque
Dizia que eu falava assim arrastado
Como na Bahia, como no cerrado
Não esqueci daquele dia
Ainda não perdi a minha vez
Será? Sei que outros sobem
Não sei se chegam, não se se caem
Nem se ela espera alguém chegar
Só sei que a vista é linda,
Valeu a pena tentar
Decidi, não desço mais.

6 de nov. de 2009

Míopes

Não se desespere não, amor

Não se desespere não, amor
Com a falta de brilho de um dia sem cor
Com a cebola escancarada no bife
Com os programas de computador
Com o salário que não dura meio mês
Com o professor que tanto te estressa
Com a segunda-feira que não cessa
Com os tais processos trabalhistas
Os punguistas, os contrabandistas,
Com as fotos sem retoque
Com todo meu estado de choque
Com as frases atravessadas
Com a distância de nossas calçadas
Não se desespere não, amor,
Pois não há frustração que não se repare
Tão pouco há mal que nunca termine
Não se desespere não, amor
Amanhã estréia um novo dia
E depois, um outro e outros mais
Incalculável sucessão de tardes e risos
Um horizonte ilimitado para nossos olhos míopes.

5 de nov. de 2009

Prelúdios da falta

Se...

Ela anda esquecida. Ela anda distante. Ela anda irritada.

Será que mando flores? Será que mando chocolates? Mando um cartão bem impresso com acabamento especial? Faço-lhe um poema? Escrevo uma carta e mando pelo correio? E se ela não gostar?
Será que ligo? E se ela não quiser falar?
Convido pra jantar? Chamo pra ir viajar? E se ela recusar?
Será que digo que estou precisando dela? Será que peço mais atenção? E se ela se incomodar, achar que estou cobrando demais?
Será que choro? Será que rezo? Será que peço conselho a algum amigo? Será que me calo? Será que me deito? E se nada disso der certo?
Será que ela volta? Será que ela me abraça? Será que ela me beija? Será que ela se entrega de novo? E se ela já não estiver disposta?
O que eu falo pra ela? E se ela não gostar? O que eu faço? E se ela gostar? Como eu continuo?
E se ela desistir? E se ela se perder? Onde eu a encontro?
E se ela voltar? O que eu faço primeiro? O que eu faço depois? E se eu me perder?
Será que ela me aceita? Será que ela me entende? Será que ela me quer? E se não quiser?
Será que choro? Será que rezo? Será que peço conselho a algum amigo? Será que me calo? Será que me deito? E se nada disso der certo?
E se eu perder a graça? E se eu não valer a pena? E se eu não a fiz feliz? E se eu nunca souber? E se eu nunca esquecer?
E se o se nunca acabar?


Ninguém lá

Eu vi um homem que seguia lento
Já bem curvado com o pesar dos anos,
Trêmulas as mãos, os pés não mais levianos,
Rosto marcado, coração que ficou no tempo

Dele me aproximei com olhar atento
Pensei: "Quantas lutas, desenganos,
Causaram-lhe tanto abatimento?"
Me reconheci naquele olhar

E ele prosseguia lentamente
Tão solitário em meio a tanta gente
Arrastando a sua história sufocada

Será que teve filhos?
Não vi nenhum ali te dando a mão
Talvez, seu amor se foi na juventude

Ele não a esqueceu.

27 de out. de 2009

O bêbado e a senhora

Pelo seu querido binóculo, Ezequiel observava a vida dos outros passando. A dele já havia passado. Observar a rotina das pessoas fazia dele mais humano e menos besta. Aquele hábito mantinha-o sóbrio, quase no limite de atravessar a linha da loucura, mas ainda sóbrio. Vez ou outra, desejava enlouquecer e viver no mundo que ele havia criado. Vez ou outra, ele sentia vergonha, angústia, desespero, medo, frio, fome, repulsa e sono. Na maioria das vezes, ele só observava a vergonha, angústia, desespero, medo, frio, fome, repulsa e sono das pessoas.

Nesses sabe-se-lá-quantos-anos de rua, notou que o paulistano é paciente e solitário. Paulistano espera o semáforo abrir, espera o trânsito andar, espera um lugar no restaurante, uma vaga no estacionamento, a fila no banco, a fila na loja, outra fila pra comprar o ingresso do cinema ou do jogo do seu time, espera pra ter alguns centímetros quadrados no ónibus e no metrô, espera seu lugar ao sol, espera a garoa das 6 da tarde, o fim-de-semana chegar pra poder trabalhar mais em casa, as férias pra fazer entrevistas e mudar de emprego, espera dar o horário do rodízio pra ir trabalhar, espera o chefe ir embora pra poder ir pra casa, o aumento pra poder comemorar, espera o sol pra descer a serra, a madrugada pra poder dormir, a doença pra ir ao médico, a morte pra viver a vida... Paulistano é rodeado por milhões de pessoas, mas é tão sozinho que Ezequiel não conseguiu achar um exemplo comparável. Todo mundo se olha. Ninguém se enxerga.

Ezequiel enxergava.

Dali de seu canto, na calçada de uma loja de pneus, a um quarteirão do Elevado Presidente Costa e Silva - o Minhocão - presenciou um beberrão falando de Deus, pregando a bíblia, falando de salvação, de pecado, de paz, amor e a graça de viver. Discursou alto por vários minutos, repetindo várias vezes determinados salmos e se embaralhando em algumas frase. "Deus é pai. Deus é a salvação de todas as almas e de todos os corações. Confia em Deus. Confia. Deus salva!" - dizia ele. Os passantes e moradores olhavam com ar de curiosidade e vergonha alheia, mas a pressa não permitia que eles fizessem mais do que isso. De repente, uma senhora gorducha sai da portaria do prédio e começa a reclamar com o tal "pastor andante". A reação dele, diante da situação, foi nada diferente do esperado: violenta. Com dois pontapés e a socos derrubou na calçada a pobre senhora. Ela bateu com força a cabeça no chão e ficou lá se debatendo. O pregador da paz terminou por causar o caos. Enquanto a senhora ficava a gritar de raiva e dor, o bêbado saiu dali. Nem sequer foi correndo. Ninguém foi ajudar a senhora. Ninguém foi atrás do cara. Simples assim.


Depois de alguns minutos, Ezequiel foi até lá ver como a senhora estava.