10 de dez. de 2010

Obstante

Eu batia na porta querendo entrar e ela trancava, colocava o armário na frente, fechava a janela. Tem algo assim muito diferente, um coração descrente. Não é o meu, obstante, continuo andando, vendo a luz. A estrada é íngreme e cheia de cacos, objetos jogados. Acho que vi uma foto nossa ali no chão, deixada. Fui resgatando tudo de importante que encontrei. Minha calça preta, meu copo, o chaveiro que ela nunca usou. Vi o cão de pelúcia, o Sansão, até um sorriso no chão. Será que ela abandonou até os risos? Até as frases? Foram tantas frases, tantas palavras diminutivas. Todas pelo chão, decidiu soltar minha mão, enfim. Será que ainda se lembra dos fatos? Dos acasos? Será que ela lembra da minha cara de desespero quando o assunto era fim? Do medo de perdê-la? Do medo de não tê-la? Será que pensa que menti? Será que pensa que fingi? De tanto tentar não perder, perdi, se foi, partiu. Demorei tempo demais para chegar até o final, na tentativa tresloucada de salvar tudo. Nem sei se salvei. Talvez tenha faltado o mais importante. -Ei senhor, você viu um coração por aí? -Não vi não, rapaz. Não passou por aqui, já procurou no Morro do Adeus? - Não procurei não senhor, o Morro do Adeus é tão longe e tão definitivo. Prefiro acreditar que, no máximo, ele foi para o Morro do Até Logo. Ah... Mas como eu queria que estivesse aqui no Morro da Saudade. Saudade.

18 de nov. de 2010

A cura para todo mal

Renúncia

Não se desespere não, amor
Nosso amor não tem cura
Ele é a cura para todo mal
É o que resta depois da festa,
É o que fica depois do beijo,
Depois do gozo, depois do banho
É desejo de vingança, outra dança
É o princípio do acaso infinito,
Do passado bem dito, futuro bem quisto
É nossa eterna infância, esperança
Pensa que pode ser e será
Sei que andou pensando em virar lembrança
Olhou e relutou com a aliança 
"Será que me amas de leve
Ou me amas de monte?" - pensou
"Na dúvida, é melhor não amá-lo mais!"
"É isso! Devo esquecê-lo, enfim."
Quis porque quis desejar o fim
Quis porque quis perder a esperança,
Abrir mão da infância, sei lá
Tanto tentou, que cansou de tentar
Devo ser mesmo um sujeito despreparado
Falta o caminho, falta cuidado
Falta o teu corpo e o sutiã apertado
Falta mais aquele eu que mora afastado
Fui buscá-lo, mas não encontrei
Deixou um recado anotado
Com os garranchos pintados de azul
"Só volto se ela disser que fica.
Mas tem que ficar bem ficado,
Querer bem quisto, amar de monte,
Como eu quero, como eu amo."
E não se esqueça mais
Que nosso amor não tem cura
Ele é a cura para todo mal.

16 de nov. de 2010

5 anos e 5 meses

Nascimento

Uma dor de dente inesperada tirou-o do trabalho mais cedo. Um dos sócios até ligou dizendo que havia um trabalho urgente aguardando aprovação, mas ele foi firme e disse que só veria isso no dia seguinte. Depois do dentista, foi direto para casa. Acabou cochilando no sofá. Não conseguia se lembrar qual fora a última vez que dormira a tarde.

Levantou, foi até a cozinha assaltar qualquer coisa na geladeira e depois caminhou até seu quarto. Sua esposa estava para chegar. Se o trânsito estivesse bom, em uma hora e meia, ela estaria em casa. Naquele momento, sentiu uma grande vontade de estar com ela, abraçá-la, buscá-la no trabalho, levar ao cinema, para jantar, perguntar se ela gostaria de se casar com ele, etc e tal. Ficou imaginando-a com aquela voz doce "Mas amor, nós já estamos casados já faz uns 2 anos!" e ele responderia surpreso com aquele sotaque que sempre o acompanhava "É verdade. Então casemos de novo, que tal?" e ela iria sorrir bem sorrido. Era gostoso imaginar ele imaginando aquilo. Podia sentir daqui a felicidade dele.

Abriu a caixa no fundo do armário e ficou revirando as fotos e os bilhetinhos da época de solteiro. Divertiu-se muito lembrando-se da origem das brincadeiras que ainda acompanham o dia a dia deles. O amor é uma eterna descoberta. O casamento então, mesmo tendo tudo par ser monótono e morno, é feito de microdescobertas diárias e novidades eventuais. Começou a pensar de como gostava daquela rotina, pois valorizava os dias em que um dos dois decidiam quebrá-la. Pensou no Xadrez das segundas, a Canastra com os vizinhos do apartamento de baixo, o cinema das quintas, o jantar fora das sextas e os passeios dos domingos. Nem toda rotina é chata, mas decidiu que aquele dia era um daqueles dias de se quebrar a rotina.

Catou uns dois pacotes de post-its e começou a escrever tudo o que vinha pela frente, tudo que o fazia lembrar dela. Encheu as paredes e móveis da casa de termos indecifráveis e sem sentido algum, a não ser para eles mesmos. "Veio janeiro", "Fevereiro e Junho", "17, 02 e 25", "Boraceia", "pppsp", "feromônio" e até "touro mecânico" eram algumas das coisas que consegui passar os olhos. Não fazia a menor ideia do que poderiam ser, mas ele estava certo de que ela entenderia.

No dia seguinte, iria fazer 5 anos e 5 meses que eles estavam juntos. Houve uma época em que eles comemoravam todo mês. Já fazia um tempo que não faziam isso, mas ele decidiu que hoje iriam comemorar. No chão da sala, de frente para a porta da entrada, fez um cartaz all type com letras bem trabalhadas que quase pareciam figuras. O cartaz dizia "Feliz 5 anos e 5 meses, amor. Quer se casar comigo?".

Escondeu-se debaixo da cama feito criança. De repente, o trinco da porta anunciava a chegada de alguém. Era ela.

Quase nove meses depois, em um belo dia dezessete de primavera, Isabela veio ao mundo.

8 de nov. de 2010

Partiu...

Desencontro

Sentou na calçada para chorar as mágoas tripudiadas
As vistas cansadas, as ausências pré datadas
Chorou as dívidas impagáveis e brigas recentes
Lamentou a nulidade profissional e a crise pessoal
Embriagou-se da angústia congestionada
Sentiu-se como barco à vela em tempestade
Como aeromotor em turbulencia
Ficou sem freios, só anseios
Perdeu a cabeça e a cabelo
Perdeu-se

Se encontrá-lo, por favor, me avise
Sua mãe ainda espera revê-lo
Talvez, seja a única.

21 de out. de 2010

Inebriam

Ensolarada ou nublada

Teus nublados céus que hora inebriam
E hora me mostram o horizonte distante
Ainda são os mesmos céus azuis de mar
Os mesmos ceús de nuvens brancas de uma
Tarde ensolarada de um dia de surpresas

Suas manhãs ainda não são tranquilas,
Mas prefiro a surpresa de cada dia
Nem sempre quero a parcimônia
Quero muito mais que a noite sonha

Ainda prefiro suas manhãs nubladas
Suas noites enluaradas ou sem lua
Ainda é você, sobre tudo.

3 de set. de 2010

Quando eu morrer, vá ao meu velório

Quando eu morrer, vá ao meu velório, por favor. E se não for pedir muito, chore um pouco e coloque flores no caixão. Chame os mendigos, os amigos dos seus amigos. Chame os que estiverem passando por lá. Só não deixe aquele lugar vazio, pelamordedeus. Vai parecer que minha vida não fez sentido.

O problema de morar longe, ser fechado e meio nômade é que você não desenvolve laços, não cria vínculos. Quem em sua sã consciência vai até tão longe para se despedir de um semi-amigo? O mundo é das conveniências. No máximo, vão me mandar um e-mail ou deixar uma mensagem fúnebre no Facebook. Mensagem a um defunto. É a vida convertida em bytes.

Tenho medo de ir embora sem deixar nada, sem deixar herdeiros, ir embora às pressas, sem fazer diferença. E se a namorada me deixa antes de virar esposa? E se meus amigos me esquecem? Meus sócios me expulsam e compram minha parte? Meus funcionários me processam? E se minha hora for daqui a pouco?

Senhor, se tu existes mesmo, não me deixes cair em ostracismo. Não me deixe ir sem deixar, ao menos, vaga lembrança, uma mensagem de esperança e meia página de versos guardados.

22 de jul. de 2010

O assalto

Sequestraram meus versos

Fiquei a semana toda tentando escrever um poema novo para você. Tentei soneto. A e B, A e B. Tentei acróstico com seu nome. Tentei "Curciniano", com meus versos irregulares. Tentei, em vão, plagiar Vinícius, Saramago e Neruda. Fui ler crônicas de Carpinejar para tentar fugir dos versos. Fugi.

Era para ser uma surpresa, mas a demora fez você vir se queixar.

__Acho que você não gosta mais de mim. Não me escreve mais coisas bonitas. Fico esperando aquela declaração e ela não vem. Tá tudo bem?

Mulher quando pergunta se está tudo bem, pode ter certeza que tem alguma coisa muito errada. Você deve estar relapso e distante. Ela deve estar descontente com o cabelo e com a falta de sapatos. Pode estar de TPM, pode ter outro, sei lá. Qualquer palavra pode ser fatal. Qualquer ausência de palavras, também.

Perdão, amor. O cansaço e a falta de tempo roubaram minha inspiração. Sequestaram meus versos e o preço do resgate é alto. Não tenho como pagar agora. Já avisei à polícia sobre o caso, mas ainda não encontraram vestígios. Nem sinal das minhas rimas tortas. Se estiverem vivas, devem estar sendo torturadas em algum cativeiro sujo e escuro, pagando o pato pela minha falta de ação. Eu lamento muito.

Lamento muito por querer te presentear com belas palavras e não estar conseguindo despistar o briefing mal digerido, o orçamento que ainda não foi aprovado, a reunião desmarcada e os zeros a menos na conta bancária.

Sei que você merece muito mais que telefonemas cotidianos e volúpias casuais, mas é que agora falta-me a crase. Estou ciente que deixar faltar a crase é um erro terrível. É pior que deixar faltar a vírgula ou ponto final. Muitas coisas perdem totalmente o sentido, tornam-se abruptas e indiferentes. Mas prometo correr atrás do prejuízo na semana que vem. Prometo bem prometido.

Não é falta de apreço. Não é falta de amor, não é elo perdido, muito menos estou menos apaixonado. Não tenho outra, não quero ter um caso. Amar você já me ocupa um coração inteiro, não restam arestas, não sobra nenhum espaço. Não esquece que não te esqueço. Mesmo quando as palavras me esquecem, mesmo quando a sorte não lembra que existo, mesmo quando a maré não quer encher. Não esquece que não te esqueço, meu bem.

13 de jul. de 2010

Brilha

Diáspora

Eu queria te levar pra jantar essa noite. Um jantar às escuras com direito a vinho e mãos dadas. Uma noite nua sem horas contadas. Eu queria compensar meu mau jeito. Compensar seu esforço de admirar meu rosto. Os pés no chão e a cabeça erguida. Voz contida, paz declarada. Eu queria mais você na minha estrada. Queria mais você nessa noite zangada. Queria compensar seus braços e pernas. Seios, anseios, língua e pescoço. Queria compensar as horas perdidas com discussões sem fundamento. Segurar a paz, celebrar o esforço. Meu cansaço, o seu sofrimento. Queria beijos ao vento, sem roupa, sem lamento. Me ajuda a jogar fora essas cartas marcadas. Me ajuda a enterrar as diásporas, o tédio e o infame. Manda pra cá mais uma dose desse sorriso, mais um pouquinho desses olhos brilhantes. Brilha.

Te amo, te odeio

Para depois da guerra

Odeio discutir com você antes de dormir. Isso me tira o tesão do sono. Me faz ter pesadelos. Me faz acordar mau humorado e até mais gripado que ontem. A Sinusite ataca forte. Parece que até acordo mais azarado: a energia acaba quando vou tomar banho, chove quando estou sem guarda-chuva, desço no ponto errado, chego atrasado.

Odeio quando a gente briga. Odeio quando a gente não se entende. Mas brigar com você e acordar querendo te ouvir é uma certeza de que te amo. É na ausência que percebemos que amamos. É com as coisas banais que o amor se constrói. Não é quando digo "eu te amo", é quando digo "eu te odeio". A gente odeia quem a gente ama, de vez em quando. Deve ser por isso que dizem que amor e ódio são sentimentos próximos. Próximos pela intensidade. A gente ama quem a gente odeia, de vez em quando.

Sei que te amo não pela linda noite de amor de anteontem no meu quarto, o almoço abraçados, a tarde no charmoso café. Sei que te amo por te achar linda de manhã, pela sua cara de felicidade quando dá gargalhadas, pelas brincadeiras bobas na cama e no sofá, por odiar quando briga comigo, por odiar meus ataques de ciúmes e os seus ataques de ciúmes. Te amo porque te odeio de vez em quando. Te amo porque te amo sempre, mesmo quando te odeio.

6 de jul. de 2010

Um texto bem eu

Tem dia

Tem dia que eu sinto falta da falta que eu sentia de morar numa metrópole. Acordo com um pensamento provinciano mesmo. Dá vontade de trocar de vida, de vez em quando.

Chegar no trabalho em quinze minutos. Voltar pra almoçar a comida da mãe. Abraçar o pai e o irmão. Almôndegas ao molho de tomate e suco de limão. Descer pra conversar com o Tota, o Cabeça, o Katuso, o Bizu e o Brunete. Tocar violão com o Victor. Ir ao pit dog com o Renan. Jogar Play Station com o Brunão. Fazer Muay Thai e depois ir tomar açaí com o Josivan e o Sebinha. Falar de futebol com o Vinicera e o Seu Geraldo. Os futebóis de sábado no Crac-Bol. Tirar a Cota da gaiola. Andar sem medo de me perder e ir parar numa bocada. Estacionar o carro na rua sem preocupação. Ficar esperando um tempão para o Seu Edmílson abrir o portão da garagem. Disputar o computador com o irmão. Tomar café com pão. Levar bronca do pai. Comer o bolo de laranja que minha mãe fazia e eu detestava.

Tem dia que eu quero qualidade de vida. Tem dia que eu quero esse caos. Tem dia que quero todos os amigos por perto. Tem dia que quero ficar só com ela. Tem dia que quero ficar só. Tem dia que tudo. Tem dia que nada. Tem dia que é hora, que é minuto, que não passa. Dá vontade de trocar de vida, de vez em quando.

Deixar o carro em casa e ir trabalhar de busão. Forçar as vistas e ir lendo no caminho. Tomar capuccino com açúcar. Reclamar de briefing mal feito, resolver logo briefing bem feito. Ir almoçar no restaurante baratinho do chinês. Comprar chocolate na padoca. Comer tudo de uma vez. Trabalhar muito. Falar de trabalho. Voltar a pé pensando na morte da bezerra. Trabalhar mais. Pagar as contas. Deixar as contas vencerem pra ir viajar. Rir da risada do Xandão. Perder no Street Fighter pro Matoza. Perder o busão. Brincar de Clube da Luta com o Pedro. Tomar um puta chute naquelelugarquedóipracaraleo. Comprar cerveja ao invés de comida. Começar uma dieta saudável pra perder barriga. Falar de trabalho. Torcer pro sucesso chegar. Pra sexta-feira voltar. Dá vontade de trocar de vida, de vez em quando.

Ir ao supermercado comprar Maizena pra Lucia e Coca-Cola pra Dona Cida. Passar na banca e comprar o gibi da Mônica pro Rafa. Sair com a Aline pra tomar coquetéis e depois apagar com ela debaixo do edredon. Discutir por coisas bobas só pra fazer as pazes. Deixar a Poly deitar na cama pra ver se ela para de latir. Abrir a porta de madrugada quando ela quiser sair. Levar a Keila pra passear. Tomar sorvete até enjoar. Ver filme antigo na TV. Perder feio na Canastra. Comer aquele delicioso macarrão com carne moída. Desejar tudo isso pra toda a vida.

Dá vontade de trocar de vida, de vez em quando. Não trocar de vida com alguém. Trocar comigo mesmo. Tem dia que tudo. Tem dia que nada. Tem dia que é hora, que é minuto, que não passa.