22 de dez de 2010

O carrinho amarelo

Quando eu era menino, bem menino, tinha uns 5 ou 6 anos de idade, eu morava numa pequena cidade lá do interiorzão de Minas e costumava brincar com o Edu, meu vizinho, um garotinho que tinha mais ou menos a minha idade. Lembro que o Edu ia até a minha casa e ficávamos brincando de carrinho no quintal. Ele levava uns dois ou três carrinhos dele e eu pegava os que eu tinha, que não eram muitos também. Dentre esses, tinha um amarelo que era o meu preferido. Ele era realmente muito mais bonito que os outros e, por conta isso, o Edu sempre pedia pra brincar com ele. Eu ficava meio chateado, mas acabava deixando o Edu brincar com ele e pegava um outro dele, que era o segundo mais bonito.

Certa vez, fomos começar a brincar e eu disse pro Edu que naquele dia, eu iria brincar com o meu carrinho amarelo, já que eu nunca brincava com ele. O Edu, em uma negativa firme e decidida, contrariado, se levantou e disse que desse jeito, ele não brincava, que só brincava se fosse com o amarelo. Eu tentei convencê-lo de fazer diferente, já que eu sempre deixava ele brincar com o carrinho, mas ele foi irredutível e, como eu estava muito a fim de brincar, acabei cedendo.

Brincamos durante um bom tempo, que não saberia dizer quanto, já que o dia passa muito mais rápido na infância e depois o Edu foi embora. No dia seguinte, o Edu veio cedo com os carrinhos, me chamando pra brincar. Na hora de escolher o carrinho que cada um iria controlar, lá foi ele de novo pegando o meu carrinho amarelo preferido. Eu olhei pra ele com cara de bravo e lembro dele ter dito algo como: "Ah... Nem vem. Para de reclamar e vamos brincar logo, poxa!". E essa situação se repetiu mais alguns dias. Eu acabava me divertindo brincando com o Edu, mas sempre ficava chateado, porque ele nunca me deixava brincar com o meu carrinho amarelo.

Eis que um dia, eu bati o pé e disse que iria ficar com o amarelo, pois nunca tinha brincado com ele. O Edu pegou os carrinhos dele contrariado, saiu dizendo que eu era um traíra ou qualquer coisa do tipo e disse que não brincaria comigo nunca mais, que a partir daquele dia, eu não era mais amigo dele.

Mais tarde, fui contar pra minha mãe o que tinha acontecido e ela ficou muito brava comigo. Ela me deu uma bronca daquelas que eu nunca esqueci. "Mas o que é isso que você tá fazendo? Amizade não se compra! Isso é um absurdo! Como você se prestou a um papel desses? Se o Eduardo gostasse mesmo de você, ele iria querer brincar, independente de você emprestar ou não o seu carrinho. Quando a pessoa gosta mesmo de você, ela cede também, não é assim. Se você fizer isso de novo, vai tomar uma surra pra largar de ser bobo. Tá avisado!" - disse a minha mãe quase gritando, totalmente nervosa. Acho que foi o jeito dela de tentar me ensinar a dizer não.

Depois desse dia, o Edu não apareceu mais lá em casa. Eu fiquei bem triste pelo sumiço dele, porque não tinha mais com quem brincar. Meu irmão era bem pequeno naquela época, devia ter uns 2 anos de idade, e não sabia brincar de carrinho. Lembro de ter ficado um bom tempo vendo televisão e brincando sozinho. Eu pegava pedaços de tijolo das casas em construção e desenhava pistas de corrida no quintal, como se fossem circuitos de competição para os meus carrinhos. Eu era o piloto do carro amarelo e sempre era campeão. Foi nessa época que meu pai me deu um Atari de presente de natal e até jogava comigo, as vezes, pra eu não ficar só brincando sozinho.

Depois, veio a escolinha e comecei a fazer novos amiguinhos, que aceitavam brincar comigo mesmo se eu não emprestasse meu carrinho favorito. E hoje, me pergunto: será que aprendi a dizer não? Saudades de olhar com os olhos daquele menino.

Um comentário:

Claudinha disse...

Acho q no fundo as mães sempre têm razão... ou quase sempre... Eu digo NÃO o tempo todo. Não sei como fazer o contrário...

Ah, as pimentas são mais um tipo de amuleto... dizem...

Não seja tããão pessimista sr. poeta.