29 de set. de 2008

Serviu?

Não serve mais

Te apresento o meu sorriso meia boca
Meia cara, tanta luta, tanta dívida
Te apresento o meu jeito desregrado,
Meu cabelo despenteado, meu soluço,
Tanta esquiva que esboça vida

Eu sinto a falta do almoço e do jantar
Que minha mãe oferecia sem eu precisar comprar
Eu sinto a falta dos meus dias mais completos
Meus domingos indigestos que demoravam a passar

Tantas mudas, tantas vigas, tantos espinhos
Que já sangrei até cansar, já calei até gritar,
Já sentei, e já cansado de sentar, deixei derramar
Vinho tinto no meu terno favorito
Só assim eu pude ver que de tão sujo,

já não me servia mais.
Eu já não servia mais.

20 de set. de 2008

Velhos olhos de menino


Segunda, quando ele estava voltando pra casa (ou voltando de casa, já que nem sei mais se a casa dele é aqui ou lá), lhe ocorreu que ele é a pessoa certa pra muita gente. Sabe aquela história de que "a pessoa certa faz tudo certinho: chega na hora certa, fala as coisas certas, faz as coisas certas, mas nem sempre a gente está precisando das coisas certas"? Pois é. Ele é um autêntico exemplo de pessoa certa. Mas que culpa eu tenho se as pessoas erradas são muito mais interessantes? Eu juro que tentei ensiná-lo a ser a pessoa errada, mas ele não aprende nunca! Já cansei de repetir as mesmas coisas, mas ele não me dá ouvidos.

Eu não consigo entendê-lo. Tento, analiso, observo os fatos, mas não consigo. Ele continua vendo a vida com aqueles olhos de menino. Menino que acabou de entrar na escola e ora se sente maravilhado, ora sente medo. Onde ele pensa que vai chegar com esses olhos de menino? Quando é que ele vai amadurecer esses olhos de menino?

Toda vez que falo do assunto, ele desconversa e diz que certas coisas é melhor não aprender. Certa vez, ele teve a audácia de me dizer que o melhor a se fazer é enxergar tudo como se fosse a primeira vez. Todo dia, um primeiro dia. Toda lua cheia, uma primeira lua cheia. Todo passo na areia da praia, como se fosse o primeiro passo. Todo gol, como se fosse o primeiro gol. Todo beijo, um primeiro beijo. Todo relacionamento como se fosse o primeiro, como se nunca tivesse sofrido, nunca tivesse brigado, nunca tivesse se decepcionado, nunca tivesse sido deixado, sido esquecido, chorado, se magoado, amado... Todo dia, um primeiro dia.

Onde ele vai parar vendo com esses velhos olhos de menino? Onde é que ele vai parar com esse velho coração de menino? Quando ele vai aprender a ser a pessoa errada? Quando ele vai aprender a não ser a pessoa certa o tempo todo?

6 de set. de 2008

Ouvi dizer...

Final feliz

Ouvi dizer que você

É garantia de bem-querer
É certeza de final feliz e
Querer-te é algo que eu jamais quis

Mas bastou você passar por mim
Pr'eu só querer dizer que sim
Bastou então ouvir sua voz
Pr'eu me perder pensando em nós

Foi leve e insosso o meu penar
Quando me dei conta, deixei no ar
Já não entendia mais o peso
De me debater e sair ileso

É quase um artifício em vão
É praticamente um 'meio não'
É verdade imposta, é passageiro
Chegou a hora de rodar o mundo inteiro.

30 de ago. de 2008

Sem título

[sem imagem]

Vamos! Apenas me diga quem é você. Sem instintivamente dizer seu nome, idade, profissão. Ou mesmo sem dizer qualquer característica que te insira numa das gavetas hierarquicamente organizadas numa das estantes de madeira da dispensa.


Mas diga a verdade! Sem medo. Sem receio. Tente! Por quê não experimentar o novo? Você continua andando rápido pelas calçadas. Vira o rosto a quem se insinua ou olha para você com um sorriso. Contenta-se em ver o céu por trás dos edifícios. Reprime lucidez e foge de uma possível sensação de frio na barriga.

Você continua deduzindo os outros através de seus trajes.Você continua sendo honesto com todos, menos com si mesmo. Alimenta seus sonhos com papéis coloridos e bem impressos de revistas de direita. Economiza dinheiro para presentear a si mesmo nos fins de ano. Joga sempre lixo no lixo, na tentativa de limpar sua consciência.

É de gente assim que o mundo globalizado precisa. Gente que aprendeu a viver aceitando seu lugar. Gente que paga o que recebe e sempre deve o que vai receber. Gente cuja maior qualidade é fazer o que mais abomina, com quem mais odeia, a qualquer hora, sorrindo. Mas ordens são ordens, não é?

Permaneça assim, já que não te incomoda. Continue como a mulher que escrevia cartas de amor a si mesma. Amontôo de palavras em círculos para se sentir um pouco melhor. Vamos, continue! Mas saiba que nada me faz mais infeliz do que aceitar isso. Continue caminhando. Continue fingindo sua felicidade. No fim, você é menos pior do que eu, que sabe onde estão os erros e continua errando.

*Lembro que escrevi esse texto em um surto de indignação no meu primeiro período de faculdade, depois de uma aula de Teoria da Comunicação. Achei ele mofando por aqui! Acho que agora ele faz mais sentido do que nunca.

29 de ago. de 2008

O leão

O mundo se cansou dos ídolos,
Se cansou dos astros e dos gênios
Não há mais lugar para deuses
Não há lugar para os famintos,
Os loucos e humilhados
Esconda o seu desespero
Engula o choro e cuspa fora
Ensgasque com seu medo e
Finja que foi comida mal digerida
Chute as pedras, pule os buracos,
Aproveite um segundo mais feliz
O leão que sempre cavalguei
Ficou prá trás, se perdeu
O leão que sempre me defendeu
Ficou pra trás, se perdeu.

7 de ago. de 2008

A assimétrica

Consumista

Hoje eu quero bocagear a minha sorte,
Fugir do Arcadismo, buscar meu norte
Continuo a ignorar os academismos
Até porque não sei escrever sonetos
Eu não ligo pra métrica
Eu não conto as sílabas
Eu gosto é do estalo
Eu gosto é da desconstrução
Da língua em noite de mesa farta
Sou bem mais literal que poeta,
Bem mais consumista que artista
Quando quero, quero agora
Toda hora, toda vida
Eu quero um barco, um avião
Pra viajar por um ano inteiro sem vazão
Eu quero um manto, um disco clássico
Quero um livro ilustrado, um poema rimado
Uma música animada pra dançar sozinho
Quero depósitos em minha conta bancária
Pra sair a noite e tomar whisky
Quero reticências, acento circunflexo,
Vírgulas, mas não quero o ponto final.
Ei, eu já disse: eu não quero o ponto final,

6 de ago. de 2008

Aos 16... (Parte 2)

Celebrando o amor perdido

Todas as canções de amor que escrevi,
Foram pensando em teu ardoroso olhar,
No poder de aconchego dos seus braços,
No êxtase indissolúvel de seus beijos

Não me faltam lembranças nítidas
Das suas doces palavras ao vento
Seu sorriso indiscreto e tocante
Seu jeito transparente e indistinto

Restou o gosto amargo do fim
Ficaram suas cartas e as fotos
E eu, alheio as suas intenções,
Para celebrar e colorir meu coração vazio.

*Mais um poeminha da época de adolescência. Se eu tivesse escrito esse texto nos tempos atuais, muitos diriam que ele ficou "emo", mas naquela época nem existia esse movimento ainda. Bons tempos! ;D

5 de ago. de 2008

Aos 16...

2 lados

Veja se tem graça se matar de amor
E ainda acordar vivo no outro dia
Lembrar da morte e morrer de novo
Um círculo vicioso
Viciado em você

Eu queria ter uma bomba
Para me livrar do prático efeito das tuas frases
Quintas intenções em quatro simples palavras,
Três sensações em atitudes sensatas,
Dois caminhos... Apenas um é o certo

Cada vez te sinto mais distante
Você se esquece dos bons momentos
Mesmo quando estou perante
Teus olhos... Ja dói tanto que nem tento
Mais lutar por você... Apenas lamento
E sigo a vida como ser, errante e incerto
Se devo ainda tentar viver.

*Achei esse e outros poemas antiiiiigos aqui no meio da minha bagunça. Esse aqui, eu tinha 16 anos quando escrevi. Fazia 2º Ano do Ensino Médio. Não sei de onde surgiu a inspiração pra ele, até porque eu realmente não estava morrendo de amores por ninguém. É uma prova de que nem sempre as coisas que eu escrevo são necessariamente auto-biográficas ou refletem situações que eu estou vivendo. Sendo bem sincero, menos da metade são assim. E é engraçado como é notório o tom adolescente em crise existencial/experimentalista/pseudo-intelectual nas coisas que eu escrevia. Chega a ser engraçado! Achei bacana reler coisas do meu passado e fiquei contente porque sinto que evoluí um pouquinho daqueles tempos pra cá. :)

22 de jul. de 2008

Expontaneamente forjado

Foi-se
Expontaneamente forjado foi o meu discurso
E minha ânsia de antecipar a previsão foi só
Mais uma ânsia de me antecipar à previsão
Foi prato cheio pro abismo e eu
Já me cansei de ser mais um a violentar
A causa que me fez querer partir
Já me cansei de ser mais um a esconder
O real motivo de ter vindo até aqui
Foi tudo idealizado então?
Cada palavra? Cada desculpa?
Cada promessa? Cada desfeita?
Cada consolo? Cada beijo no escuro?
Foi tudo idealizado então?
Todo o esforço pra esconder meu rosto,
Disfarçar minha cara cansada, minha indecisão...
Escondi os olhos vermelhos e a cicatriz,
Através de um semblante que não sustento mais
Foi tudo idealizado então?
Cada palavra? Cada desculpa?
Cada promessa? Cada desfeita?
Cada consolo? Cada beijo no escuro?
Foi tudo idealizado então?
Que falta fazem aquelas mãos que me consolavam!
Que falta fazem aquelas conversas de esquina,
Os encontros semanais nem tão pré-planejados
Que sua demora pra descer fazia atenuar
Foi tudo idealizado então?
Foi-se?

18 de jul. de 2008

(Re)aprendendo...

Ele já aprendeu várias vezes a não esperar demais das pessoas que o cercam. Aprendeu bem aprendido por sinal. O problema é que ele vive desaprendendo e esquecendo desse detalhe. Continua com essa mania imbecil de acreditar que "dessa vez vai ser diferente". Por essas e outras é que ele vive conhecendo a pessoa da vida dele e logo percebe que esta não era se quer a pessoa do ano ou do mês. Decepcionar-se faz parte, eu sei, mas eu acho que ele deveria ter mais cautela. Por que continua insistindo tanto na mesma história? Pra que essa esperança patética de achar que as pessoas são confiáveis e se importam contigo? Todos sabemos que elas não se importam! Até mesmo as grandes amizades, de certa forma, são uma relação de conveniência. Claro que geralmente a conveniência é recíproca (até porque se não fosse, não seria verdadeira ora bolas), mas não deixa de ser uma relação de interesse. E por assim ser, quando um dos lados deixa de ser interessante ou deixa de ser conveniente, a amizade simplesmente se esvai como uma costura que arrebenta, um brilho que se cessa ou um grito que se cala.

Já parei pra pensar em quantas pessoas eu conheci na vida. Foram tantas pelos lugares que andei. A grande maioria pouco representou, mas mesmo assim me lembro de quase todas elas. Tiveram as que troquei apenas olhares, cumprimentos, 2 palavras, as que eu odiava, as que me desprezavam, as que brincaram comigo, colegas de escola, de trabalho, etc e etc. Tiveram outras tantas que eu considerava amigas e hoje nem devem se lembrar de mim. Há outras que até podem se lembrar de mim, mas agora não passo de um mero desconhecido para elas. E é assim que funciona. Talvez nós tenhamos prazo de validade. Vai saber... O fato é que eu não vejo razão para ele esperar tanto das pessoas. Não vejo razão pra ele procurar tanto essa pessoa certa! Afinal, o que é a pessoa certa? Isso realmente existe? Os poetas, romancistas e autores de novela dizem que sim. O cinema vez ou outra também gosta de retratar esse tipo de coisa. Ah... Tem também os contos de fadas onde as pessoas vivem felizes para sempre em seus reinos encantados. Reino encantado? Deixo isso para os contos de fadas.

Aqui realmente funciona assim: se for ajudar alguém, faça pela boa intenção e não esperando algo em troca. Se apaixonar-se por alguém, não espere a mesma paixão. Se quiser fazer questão de alguém, faça sem medo. Só não espere o mesmo em troca. Pelo menos não espere que isso ocorra com a mesma intensidade e/ou da mesma forma. É aí que ele erra! Ele dá e espera receber de volta! Mas ele ainda há de aprender (ou reaprender).