11 de dez. de 2008

Café diário

Açúcar

Eu sou agora um pouco mais

Que os restos não vividos de ontem
E amanhã serei um tanto mais

Do que as verdades que escondi,
As bromélias que eu vi,

E a cerveja que matei no bar


O placebo que tomei pra me curar

Só solfejou meu trabalho diário
Não valeu a pena o copo d'água
Não valeu o tempo da degustação

Ainda descubro a cura para todo mal
Ainda farei da sorte subterfúgio

Mas quer saber? Já passou!

Já me esquivei da quina
Já virei a página


Agora, ando meio erótico, meio bucólico,
Buscando a distração à noite toda
Esperando pelo bis de amanhã... E que venha!

Gondry que me perdoe, mas eu

Rebobinei minha mente sem lembranças
Sem direito a stop ou replay
Sem direito a regravação de cena
E as lembranças poucas que me restaram
É um quiprocó do óbvio
Que Deus me livre e guarde!


Eu quero partilhar meu vinho,
Minha foto estampada, um nome bobinho,
Eu quero um abraço no refrão
Eu quero o colo e um pouco mais
Uma xícara de açúcar, meia colher de chá.

15 de nov. de 2008

Raff

Auto-retrato

Num retrato falado, eu me encontrei
Com traços errados de lápis 6b
Reforçados com pingos de nanquim 0.3
Virei croqui e nem vi meu ser que jaz
Da pintura errada, virei verbo soberbo
Daqueles que você se esforça pra não usar
Daqueles que você coloca adjetivo no lugar
Uma noite apenas, talvez, nunca mais
Meu traço só era bonito de longe
De perto virou borrão, desmanchou
O couchê virou fosco
Amassou, por fim, rasgou
Nem tive tempo de me mostrar
Talvez, você esperasse uma aquarela
E ainda era tudo um rascunho
Nem houve chance de terminar
Pensando bem, nem de começar
Uma noite apenas, talvez, nunca mais
E semana que vem, tanto faz?
Então pega o papel e joga fora...

Ou pega o papel e deixa eu fazer meu auto-retrato
Que é pra não ter chance de se enganar.

3 de nov. de 2008

Faltam 3 dias...


Pouporri

Vislumbrou, repetiu,
Ouviu mais do que se viu,
Nem precisou tocar
Pra se entregar...
As notícias de domingo
Já não me interessam mais
Meu programa favorito de segunda,
Eu nem quis assistir
Deixei de botecar na quarta
Só pra te ver sorrir
E na sexta, de noitinha,
Você chegou
As próximas horas serão
Inesquecíveis.

30 de out. de 2008

Você merece um poema

Segue em linha reta até onde a rua acaba
Segue em linha reta até quando a linha é curva
Não dorme ainda, espera pra chegar até o final
Qu'é pra não se perder, porque eu já me perdi

Segue em linha reta para onde a luz aponta
Segue em linha reta e esquece essa distância
Amanhã quero acordar e me perder um pouco mais
Porque eu já esqueci como é me perder

Já não esperava mais nada depois da quinta vez
Já contava os dias pra chegar o fim do mês
E assim, de tanto não esperar, que apareceu
Ah... Você até merece um poema

Quinta-feira não é dia de nada
Não tem futebol na TV, não tem festa,
Não é início de semana, nem final
Era pra ser só o dia que antecede a sexta

Já não esperava mais nada depois da quinta vez
Já contava os dias pra chegar o fim do mês
E assim, de tanto não esperar, que apareceu
Ah... Você vai virar poema.

29 de set. de 2008

Serviu?

Não serve mais

Te apresento o meu sorriso meia boca
Meia cara, tanta luta, tanta dívida
Te apresento o meu jeito desregrado,
Meu cabelo despenteado, meu soluço,
Tanta esquiva que esboça vida

Eu sinto a falta do almoço e do jantar
Que minha mãe oferecia sem eu precisar comprar
Eu sinto a falta dos meus dias mais completos
Meus domingos indigestos que demoravam a passar

Tantas mudas, tantas vigas, tantos espinhos
Que já sangrei até cansar, já calei até gritar,
Já sentei, e já cansado de sentar, deixei derramar
Vinho tinto no meu terno favorito
Só assim eu pude ver que de tão sujo,

já não me servia mais.
Eu já não servia mais.

20 de set. de 2008

Velhos olhos de menino


Segunda, quando ele estava voltando pra casa (ou voltando de casa, já que nem sei mais se a casa dele é aqui ou lá), lhe ocorreu que ele é a pessoa certa pra muita gente. Sabe aquela história de que "a pessoa certa faz tudo certinho: chega na hora certa, fala as coisas certas, faz as coisas certas, mas nem sempre a gente está precisando das coisas certas"? Pois é. Ele é um autêntico exemplo de pessoa certa. Mas que culpa eu tenho se as pessoas erradas são muito mais interessantes? Eu juro que tentei ensiná-lo a ser a pessoa errada, mas ele não aprende nunca! Já cansei de repetir as mesmas coisas, mas ele não me dá ouvidos.

Eu não consigo entendê-lo. Tento, analiso, observo os fatos, mas não consigo. Ele continua vendo a vida com aqueles olhos de menino. Menino que acabou de entrar na escola e ora se sente maravilhado, ora sente medo. Onde ele pensa que vai chegar com esses olhos de menino? Quando é que ele vai amadurecer esses olhos de menino?

Toda vez que falo do assunto, ele desconversa e diz que certas coisas é melhor não aprender. Certa vez, ele teve a audácia de me dizer que o melhor a se fazer é enxergar tudo como se fosse a primeira vez. Todo dia, um primeiro dia. Toda lua cheia, uma primeira lua cheia. Todo passo na areia da praia, como se fosse o primeiro passo. Todo gol, como se fosse o primeiro gol. Todo beijo, um primeiro beijo. Todo relacionamento como se fosse o primeiro, como se nunca tivesse sofrido, nunca tivesse brigado, nunca tivesse se decepcionado, nunca tivesse sido deixado, sido esquecido, chorado, se magoado, amado... Todo dia, um primeiro dia.

Onde ele vai parar vendo com esses velhos olhos de menino? Onde é que ele vai parar com esse velho coração de menino? Quando ele vai aprender a ser a pessoa errada? Quando ele vai aprender a não ser a pessoa certa o tempo todo?

6 de set. de 2008

Ouvi dizer...

Final feliz

Ouvi dizer que você

É garantia de bem-querer
É certeza de final feliz e
Querer-te é algo que eu jamais quis

Mas bastou você passar por mim
Pr'eu só querer dizer que sim
Bastou então ouvir sua voz
Pr'eu me perder pensando em nós

Foi leve e insosso o meu penar
Quando me dei conta, deixei no ar
Já não entendia mais o peso
De me debater e sair ileso

É quase um artifício em vão
É praticamente um 'meio não'
É verdade imposta, é passageiro
Chegou a hora de rodar o mundo inteiro.

30 de ago. de 2008

Sem título

[sem imagem]

Vamos! Apenas me diga quem é você. Sem instintivamente dizer seu nome, idade, profissão. Ou mesmo sem dizer qualquer característica que te insira numa das gavetas hierarquicamente organizadas numa das estantes de madeira da dispensa.


Mas diga a verdade! Sem medo. Sem receio. Tente! Por quê não experimentar o novo? Você continua andando rápido pelas calçadas. Vira o rosto a quem se insinua ou olha para você com um sorriso. Contenta-se em ver o céu por trás dos edifícios. Reprime lucidez e foge de uma possível sensação de frio na barriga.

Você continua deduzindo os outros através de seus trajes.Você continua sendo honesto com todos, menos com si mesmo. Alimenta seus sonhos com papéis coloridos e bem impressos de revistas de direita. Economiza dinheiro para presentear a si mesmo nos fins de ano. Joga sempre lixo no lixo, na tentativa de limpar sua consciência.

É de gente assim que o mundo globalizado precisa. Gente que aprendeu a viver aceitando seu lugar. Gente que paga o que recebe e sempre deve o que vai receber. Gente cuja maior qualidade é fazer o que mais abomina, com quem mais odeia, a qualquer hora, sorrindo. Mas ordens são ordens, não é?

Permaneça assim, já que não te incomoda. Continue como a mulher que escrevia cartas de amor a si mesma. Amontôo de palavras em círculos para se sentir um pouco melhor. Vamos, continue! Mas saiba que nada me faz mais infeliz do que aceitar isso. Continue caminhando. Continue fingindo sua felicidade. No fim, você é menos pior do que eu, que sabe onde estão os erros e continua errando.

*Lembro que escrevi esse texto em um surto de indignação no meu primeiro período de faculdade, depois de uma aula de Teoria da Comunicação. Achei ele mofando por aqui! Acho que agora ele faz mais sentido do que nunca.

29 de ago. de 2008

O leão

O mundo se cansou dos ídolos,
Se cansou dos astros e dos gênios
Não há mais lugar para deuses
Não há lugar para os famintos,
Os loucos e humilhados
Esconda o seu desespero
Engula o choro e cuspa fora
Ensgasque com seu medo e
Finja que foi comida mal digerida
Chute as pedras, pule os buracos,
Aproveite um segundo mais feliz
O leão que sempre cavalguei
Ficou prá trás, se perdeu
O leão que sempre me defendeu
Ficou pra trás, se perdeu.

7 de ago. de 2008

A assimétrica

Consumista

Hoje eu quero bocagear a minha sorte,
Fugir do Arcadismo, buscar meu norte
Continuo a ignorar os academismos
Até porque não sei escrever sonetos
Eu não ligo pra métrica
Eu não conto as sílabas
Eu gosto é do estalo
Eu gosto é da desconstrução
Da língua em noite de mesa farta
Sou bem mais literal que poeta,
Bem mais consumista que artista
Quando quero, quero agora
Toda hora, toda vida
Eu quero um barco, um avião
Pra viajar por um ano inteiro sem vazão
Eu quero um manto, um disco clássico
Quero um livro ilustrado, um poema rimado
Uma música animada pra dançar sozinho
Quero depósitos em minha conta bancária
Pra sair a noite e tomar whisky
Quero reticências, acento circunflexo,
Vírgulas, mas não quero o ponto final.
Ei, eu já disse: eu não quero o ponto final,